SERMÕES DE QUARTA-FEIRA DE CINZA

AS VOLUTAS DA MORTE VIVA NOS SERMÕES DE QUARTA-FEIRA DE CINZA, DE PADRE ANTÔNIO VIEIRA

por Antônio Sérgio Bueno
Ilustrações: Rubens Lima

Eu tô te confundindo, pra te esclarecer [...]
Atrás da vida pra poder morrer.

Tom Zé

INTRODUÇÃO

O sermão é um texto em prosa – com maior ou menor valor literário – que procura persuadir os ouvintes de valores ou dogmas religiosos, por meio da eloquência sagrada, chamada parenética. Essa modalidade de discurso é uma prática retórica que, às vezes, explora recursos da linguagem verbal com alta competência artística, como é o caso do padre jesuíta Antônio Vieira.

O Barroco surge no século XVII, embora só no século seguinte comece a ser reconhecido como um estilo artístico. Estamos pensando no Barroco que surge na Itália e toma aspectos bem definidos na península ibérica. Nas palavras de Affonso Ávila, “o Barroco [peninsular] responde à necessidade de uma reação dos países católicos ao crescente alastramento do protestantismo”.1 Portanto, o Barroco que chegou ao Brasil é uma expressão estética dos ideais da Contrarreforma (este nome já traz em si a sugestão de luta, de enfrentamento. É natural, portanto, que a antítese seja a figura central desse estilo artístico). Só se percebe uma forma sobre um fundo. A forma, por exemplo, a linguagem dos sermões que vamos comentar, tem como fundo a estratégia católica consagrada no Concílio de Trento para tentar recuperar a hegemonia que o catolicismo tinha antes da Reforma Protestante.

Na arquitetura barroca, nota-se a insistência de curvas e contracurvas nos volumes e nas superfícies, que se animam e ondulam, sob contrastes de luzes e sombras (claro-escuro). Na escultura barroca, as figuras humanas expressam emoções violentas, entre o dramático e o patético. O ambiente da própria igreja, com sua ornamentação suntuosa, as imagens de santos com forte apelo expressionista, a perspectiva ilusionista das colunas contorcidas e dos tetos coloridos, vertiginosos, propiciam um clima inspirador de uma adesão emocional da plateia ao que está sendo falado pelo pregador. Quanto à pintura barroca, em vez da linha vertical, que divide simetricamente a composição clássica, observa-se a linha diagonal, que nos comunica uma sensação de instabilidade. Ao claro-escuro pictórico, corresponde, na linguagem literária, a antítese. Não existe melhor expressão verbal para o conflito (de qualquer natureza) do que o paradoxo, e, ao excesso de ornamentação, corresponde, na linguagem verbal, a hipérbole (a figura de estilo que traduz o exagero).

Voltamos agora nossa atenção para o Padre Antônio Vieira, autor dos sermões que vamos estudar. Alfredo Bosi escreve que “cada traço desse rosto vincado [de Vieira] parece acusar uma luta, perdida sempre, que outra luta vai substituir sem trégua nem desalento”2. Affonso Ávila considera-o “o mais artista dos prosadores barrocos da língua portuguesa”3. Ele é, também, o primeiro autor de nível internacional de nossas letras (Brasil e Portugal incluem-no em suas respectivas histórias literárias). No século XVII, o púlpito (tribuna ocupada pelo padre ao pregar) desempenhava funções que hoje cabem aos jornais, rádios e televisões. Era nos sermões que os fiéis ouviam e aprendiam a doutrina católica, mas, no caso do Brasil, também se informavam sobre a vida econômica, social e política da colônia e da metrópole. A igreja era, portanto, espaço de formação e informação. Os padres rivalizavam-se no esforço de alcançar maior prestígio e influência nesse espetáculo (o sentido etimológico da palavra “púlpito” é tablado, palco) ao mesmo tempo religioso e mundano.

Só o padre tem acesso ao púlpito, cuja posição arquitetônica situa o pregador espacialmente acima de seus ouvintes, valorizando sua autoridade de intérprete inquestionável do texto sagrado, de porta-voz de Deus. O sermão do Padre Vieira é um artefato lúcido e lúdico (dois adjetivos anagramáticos, procedimento estilístico tão ao gosto do pregador), ou seja, o raciocínio é conduzido de forma rigorosamente encadeada, mesclando fé e jogo intelectual, em frases geometricamente dispostas. Vale observar o uso que o Padre Vieira faz da dialética (desenvolvimento de um raciocínio através de oposições – tese e antítese – para chegar a uma síntese). Nos seminários jesuítas, a dialética era exercitada como acrobacia da inteligência. Esse estilo é chamado também de engenhoso.

OS SERMÕES DE QUARTA-FEIRA DE CINZA

O ponto de partida e o núcleo dos três sermões é a passagem bíblica que funciona como epígrafe no primeiro sermão: “Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris”, ou seja, “És pó e ao pó te reverterás”.

Primeiro Sermão de quarta-feira de cinza – ano de 1672

O sermão abre-se com uma guirlanda de antíteses. A antítese é o equivalente verbal do claro-escuro na arquitetura e na pintura barrocas (capelas laterais deixadas na penumbra, realçando a luz que se derrama sobre o altar-mor; o forte contraste cromático nas telas de Caravaggio, por exemplo). A primeira palavra do sermão é justamente “Duas”, “Duas coisas”4.

A segunda frase traz uma sequência anafórica (repetição de palavras no início de duas ou mais frases): “ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas” para mostrar pontos comuns entre as duas coisas a serem cotejadas. Em seguida, surge a conjunção adversativa “mas” para introduzir a ideia de oposição entre essas duas coisas. E o jogo antitético desdobra-se: “Uma é presente, outra futura: mas a futura, veem-na os olhos; a presente não a alcança o entendimento”5. Já se instalou o inesperado, porque sempre se espera que o presente seja mais fácil de ser percebido pelos sentidos. Só que no “corpo presente”, que é pó, este não é visto e, por isso mesmo, nem compreendido. Por outro lado, no futuro, o pó será a forma visível e evidente do corpo morto.

O principal foco doutrinário desses sermões é demonstrar que já somos pó em vida, visto que o fato de nos tornarmos pó depois de mortos é incontestável. A pergunta que serve de ponto de partida para toda a argumentação desenvolvida nessa série de três sermões é esta: “Pulvis es?” (“És pó?”, com o verbo no tempo presente). Como entender essa indagação se os olhos estão vendo um corpo vivo, em movimento? Daí surge uma sequência de pequenas perguntas, que são retóricas porque não esperam resposta do ouvinte / leitor. O pregador responde-as incontinenti: “O pó vive? Não. [...] O pó sente? Não. [...] O pó entende e discorre? Não”6. O pregador coloca-se no lugar do ouvinte / leitor e faz uma pergunta que interessa a ele, orador, responder: “se me concedem que sou homem [...] como me pregam que sou pó?”7. A primeira parte desse primeiro sermão propõe a matéria a ser nele tratada, e o pregador pede a ajuda de Nossa Senhora para se sair a contento de tão árdua tarefa. Essas partes corresponderiam, se pertencessem a uma epopeia clássica, à proposição e à invocação.

Na parte II, começa a argumentação. O Padre Vieira busca, habilmente, passagens bíblicas que possibilitem analogias ou correspondências alegóricas capazes de encaminhar as respostas das questões por ele mesmo levantadas. Vale-se de uma passagem do Êxodo, em que uma vara, carregada por Moisés, transforma-se em serpente para devorar todas as serpentes – que antes também eram varas – dos magos do Egito. O pregador conclui: “serpente que foi vara e há-de tornar a ser vara, não é serpente, é vara”8. Para o ouvinte / leitor, fica clara a analogia: o homem que foi pó e em pó se reverteu não é homem, é pó. O orador joga, ainda, com as formas verbais: “não era o que era, era o que fora e o que havia de ser”9. Adverte os homens, representados por aquele auditório: “Ah serpentes astutas do mundo”10, jogando com o substantivo nada: “se foi nada e há-de ser nada, é nada”11, num niilismo por demais atrevido para um padre católico. E completa, triunfalmente: “Só Deus é o que é”12. Do silogismo à tautologia. Do silogismo (de duas proposições, chamadas premissas – foi Deus e será Deus –, deduz-se uma conclusão – logo é Deus) à tautologia (proposição que tem por sujeito e predicado um mesmo conceito, ou seja, Deus é Deus, Deus é o que é). Simples e complexo assim!

O ouvinte / leitor começa a ser envolvido pela técnica amplificatória da argumentação vieiriana, que se concretiza formalmente numa espécie de espiral cada vez mais vertiginosa. Aparece outro silogismo inspirado no livro de Jó e em trechos do Gênesis centrados na figura de Abraão. Jó diz que foi pó e há de ser pó. Abraão diz que já é pó. O Padre Vieira leva o ouvinte / leitor à conclusão de que qualquer homem também já é pó.

Se a Literatura é a arte da palavra, o Padre Vieira faz alta literatura, não só pela beleza de seu discurso, mas também porque examina o sentido mais profundo de certas palavras-chaves como “reverteris”. O sentido dessa forma verbal permite ao pregador concluir, fixando seus olhos nos ouvintes, que “tornareis a ser o pó que fostes”13 e que a vida “não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó”14. Novamente o pregador tangencia perigosamente um niilismo condenado pela doutrina católica.

É gratificante para o ouvinte / leitor perceber como o pregador jesuíta amarra, firmemente, os nexos de seu sermão. Acabamos de dizer que seu discurso evolui na forma de uma espiral e, no final da parte III, ele fala em círculo de pó a pó. O círculo é uma vol(u)ta da espiral. Quem já visitou uma igreja barroca viu várias volutas (ornatos espiralados) não só nas colunas internas, como também nas fachadas dos templos.

Figura 1 – Voluta

Cada parte desse sermão é um giro amplificatório da espiral barroca que dá a ver a trajetória do raciocínio do Padre Vieira, que, agora, vai trabalhar a distinção entre vivos e mortos, embora o auditório já se tenha convencido de que ambos são pó. O pregador, então, lança mão de uma bela alegoria: um pé de vento, enquanto dura, levanta a poeira. O pó levantado é vida. Quando o vento se aquieta, o pó deposita-se e jaz no chão. O pó depositado é morte. Nas palavras do orador, “Os vivos pó levantado, os mortos pó caído”15. Segue com uma simples, pequena e simétrica inversão verbal, que produz inegável efeito artístico: “Não é assim? Assim é”16. E arremata esse lance de raciocínio com esta indagação, prontamente respondida com analogias que satisfazem as expectativas do auditório: “E que pó, e que vento é este? O pó somos nós [...] o vento é a nossa vida”17.

Há, também, um evidente caráter didático nos sermões do Padre Vieira, e esse sermão não é diferente: a repetição, mesmo com variações, é um modo de gravar um conteúdo doutrinário na mente do ouvinte / leitor. Além disso, a presença de palavras e frases em latim confere uma aura de sacralidade ao que está sendo dito.

Quando o pregador se refere ao movimento do pó assoprado, ele diz: “dando uma tão grande volta, e tantas voltas18. Repetindo a palavra “volta”, o Padre Vieira está imitando verbalmente o giro que uma voluta sugere. Vale lembrar que a palavra “voluta”, no seu sentido etimológico, significa exatamente volta. Não por acaso, aparece, em seguida, a metáfora da roda viva (aproveitada, no século XX, no Brasil, por Chico Buarque de Hollanda como título de uma de suas mais belas canções).

A parte V começa com nova antítese: um memento (cada uma das duas preces do cânon da missa) para os vivos ( “pó que me ouve”19 ), outro memento para os mortos ( “pó que me não pode ouvir”20 ). Tudo vira pó de terra, até as estátuas de diversos metais. Todas as cores ficarão cor de terra. O senhor e o servo igualar-se-ão no mesmo destino pulverulento. Chama a atenção esta belíssima imagem: “Nas margens do Tibre a Roma que se vê para cima, vê-se também para baixo”21. A cidade real, para cima; a cidade espelhada, para baixo, representando, simultaneamente, a glória ( “a cabeça do mundo”22 ) e a ruína ( “a caveira do mundo”23 ) do Império Romano. Vale lembrar que esse sermão foi pregado em Roma e, por esse motivo, o pregador engendra mais uma antítese: a Roma espiritual é eterna; a Roma temporal é perecível, porque está “condenada à catástrofe das coisas mudáveis”24 .

O Padre Vieira é um mestre das imagens. Na parte VI, ele utiliza a metáfora “morte = sono” ( “a morte nas Escrituras se chama sono”25 ) como porta de entrada para a vida eterna, dogma de fé da doutrina católica. Todos acordarão ao som da trombeta do Juízo Final para serem julgados e terem seu destino definido. Uma imagem muito poderosa reforça a crença na vida eterna: a fênix renascida. Essa imagem traz no seu bojo outra volta; esta surpreendente inversão: “Lembra-te, pó, que és homem, porque foste homem, e hás de tornar a ser homem”26 .

Na última parte desse sermão, o Padre Vieira alerta os fiéis da necessidade de se prepararem para a vida eterna e vale-se de um eficaz recurso retórico, que é dirigir-se diretamente aos mortos: “Mortos, mortos, desenganai estes vivos!”27 . É mais um giro na grande espiral (o próprio sermão) que se efetiva neste brilhante passo antitético: “Não é terrível a morte pela vida que acaba, senão pela eternidade que começa”28 . Um notável quiasmo (figura de estilo pela qual se repetem palavras, invertendo-lhes a ordem, construção sintática em X) encanta o ouvinte / leitor: “Tudo o que ali [no inferno] dá pena, é tudo o que nesta vida deu gosto, e tudo o que buscamos por nosso gosto, muitas vezes com tantas penas29 . O sermão encerra-se com uma série de perguntas que ficam pairando no ar e no coração dos ouvintes / leitores, que continuarão a ruminá-las, cada um a seu tempo.

Segundo Sermão de quarta-feira de cinza – ano de 1673

O Padre Vieira inicia esse sermão com as mesmas palavras com que começara o do ano anterior, na mesma Igreja de Santo Antônio dos Portugueses, por duas razões: a primeira é estabelecer uma relação de continuidade entre os dois sermões; a segunda, lembrar ao auditório que “estamos todos mais perto dela [a morte]”30 .

A fala do jesuíta não demora a provocar o primeiro impacto na plateia. Ao dizer que a Igreja prega aos fiéis, naquele dia, duas coisas, o orador usa uma gradação ( “uma grande, outra maior”31 ) e duas antíteses ( “uma triste, outra alegre; uma temerosa, outra segura”32 ). A surpresa maior acontece no anúncio das duas coisas: e 33 . “Mas não se trata exatamente da mesma coisa?”, indagariam os ouvintes / leitores, estupefatos. A resposta não demora: o primeiro é “o pó que somos”34 ; o segundo, “o pó que havemos de ser”35 . Assim começa o segundo espetáculo verbal.

A primeira alegoria é um caso do tempo do imperador Valente: uma “inimiga doméstica”36 quis envenenar seu senhor e administrou dois tipos de pó (veneno) na mesma taça. Só que o senhor não morreu. O pregador explica didática e dialeticamente: “Se bebia só os primeiros pós, morria; se bebia só os segundos, também morria; pois por que não morreu bebendo uns e mais os outros? Porque os segundos pós foram corretivos dos primeiros”37 . E encanta todo o auditório com o arremate: “[...] em vez de matar, [os venenos] mataram-se”38 . Faz uma pausa a fim de pedir a inspiração da “Divina Graça” para que ele tenha sabedoria para continuar jogando bem o jogo que não chegou ainda nem ao fim do primeiro tempo. Com a invocação habilmente deslocada para esse momento, o orador valoriza a dificuldade a ser vencida.

O pregador evoca uma voz do céu que diz a São João: “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor”39 . E indaga, antecipando-se aos fiéis: “Mortos que morrem? Que mortos são estes?”40 . Ele mesmo responde: “São aqueles mortos que acabam a vida antes de morrer”41 . São os bem-aventurados. E “os que morrem vivos que serão? Sem dúvida mal-aventurados”42 . Então, o pregador baixa a sentença: “[...] os que morrem mortos são os que têm seguro o Céu; [...] e os que morrem vivos são os que vão ao Inferno”43 . Salvar ou não salvar? Eis a nova grande questão lançada sobre o auditório.

Quase na metade do sermão, o Padre Vieira sai do binarismo para uma composição triádica dos elementos: “três coisas fazem duvidosa, perigosa e terrível [três adjetivos] a morte. Ser uma, ser certa, ser momentânea. Estas são as três cabeças horrendas deste Cérbero [cão guardião dos infernos, de múltiplas cabeças e serpentes em torno do pescoço], estas são as três gargantas por onde o inferno engole o mundo”44 . Na sequência, esse triadismo será desenvolvido.

Na primeira linha da parte III, temos o superlativo “terribilíssima”. Para que serve o superlativo? Para dar ênfase. O discurso enfático impressiona a plateia. O ouvinte / leitor angustia-se diante da afirmação ameaçadora do pregador de que a morte é “boa para sempre, ou má para sempre”45 . Ao contrário de Davi, que tinha cinco pedras no seu surrão, diz o orador, temos apenas a chance de um só tiro. Mas o padre tem que apresentar alguma saída, fazendo isso nestes termos: “Não tem remédio depois, porque depois de uma morte não há outra morte; mas tem remédio antes, porque antes de uma morte pode haver outra”46 . Ressuscitando Lázaro, argumenta o jesuíta, Jesus ensinou-nos que, “nascendo uma só vez, [os homens] podem morrer duas”47 . Recorre, em seguida, a um belo e legítimo pleonasmo: “para aprender, morrendo, a saber morrer”48 . Trata-se, enfim, do aprendizado da arte maior e mais importante de todas: a arte de morrer.

A segunda morte, afirma o pregador, seria a condenação ao inferno. Mas quem morreu uma vez, antes da primeira morte, não padece dessa segunda morte infernal. Voltando-se para o auditório, eleva sua voz de trovão, em um gesto largo e demorado, conclamando: “não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama, morrei na saúde e em pé”49 . Uma nova analogia é apresentada pelo jesuíta, desta vez, entre as árvores e os homens: “morre finalmente a árvore com o tempo a primeira vez [...] espera a árvore em pé a última caída, e esta é a segunda morte”50 . O Padre Vieira conclui: “Esperemos mortos pela morte”51 .

Tendo considerado, longamente, a “morte uma”, o pregador focaliza agora a “morte certa”. Que a morte é certa, todos sabem; por outro lado, também é “incerta, porque ninguém sabe quando”. Incerta e insegura; entretanto, diz o padre, “na nossa mão está fazê-la [a morte] certa, se nos resolvermos a acabar a vida antes de morrer”52 . Compara o estoico (que permanece impassível em face da dor e do infortúnio) ao cristão: “O estoico mata-se, para que o não matem, o cristão, morre para morrer. Morrer mal, para não morrer pior, como faz o estoico, parece valor e prudência, mas é temeridade e fraqueza. Morrer bem para morrer melhor, como faz o cristão, é valor e verdadeira prudência”53 .

Davi quis saber de Deus quantos dias ainda teria de vida, mas esse segredo é só de Deus, que não o revelou nem a Davi. O que importa é morrer antes de morrer. Então, Davi pede a Deus que lhe conceda, pelo menos, “algum espaço de quietação e sossego, em que possa meter tempo entre a vida e a morte”54 .

Na parte V, o orador trata do caráter momentâneo da morte. Nesse momento, abre-se a eternidade, ou as “eternidades”, segundo o Padre Vieira: “ou de ver a Deus para sempre, ou de carecer de Deus para sempre”55 . A escalada antitética amplia-se neste passo: “o fim de tudo o que acaba, e o princípio do que não há-de acabar”56 . Esse momento só não é terrível para “quem acaba a vida antes de morrer, [porque] mete tempo entre a vida e a morte57 . Carlos V morreu antes de morrer, quando se recolheu ao Convento de Juste. Jó também pede um tempo a Deus para chorar seus pecados. O pregador vai encadeando um exemplo no outro, como faz um professor para que os alunos fixem qualquer conteúdo.

Se já mencionamos o emprego do superlativo como um recurso de ênfase, a hipérbole (figura pela qual se exagera para mais ou para menos qualquer matéria) não poderia faltar em um texto barroco, indefectivelmente enfático: “[Davi] chorou [seus pecados] com rios de lágrimas por todos os dias e noites de sua vida58 . Reparemos que a dimensão hiperbólica não está apenas no “rio de lágrimas”, mas também em “todos os dias e noites de sua vida”.

Por estar pregando na Igreja de Santo Antônio, o Padre Vieira não perde a oportunidade de convocar esse santo como um reforço para sua argumentação. Aos trinta e seis anos de idade, Santo Antônio retira-se para um deserto, numa morte para o mundo, a fim de esperar a segunda morte. Na parte VI, o jesuíta faz uma segunda invocação (à “Divina Bondade”) para chegar a bom termo sua prédica. Note-se que o pregador, com essa atitude retórica, está chamando a atenção do auditório para as imensas dificuldades que está enfrentando para demonstrar suas teses e, assim, valoriza ainda mais seu desempenho.

Em seguida, passa a criticar o modo de vida de muitos cristãos que sentem a morte como uma intrusa, a qual interrompe a vida deles muito antes do que eles esperavam: “ainda depois da morte continuamos a vida”59 . Exemplifica com Ezequias, que “cuidava que havia de viver oitenta anos, e a morte veio aos quarenta”60 .

Na sétima e última parte, o pregador exorta os fiéis a terem coragem de romper com seus “negócios e embaraços”, antes que Deus lhes tire os anos que ainda poderiam viver. Para capturar a atenção dos ouvintes, vale a pausa, vale a ênfase, vale a repetição: “Se nesta vida (vede o que digo), se nesta vida e neste miserável mundo, cheio para todos os estados de tantos pesares, pode haver gosto algum puro e sincero, só os que acabam a vida antes de morrer, o gozam. Para todos os outros é a vida, e o mundo, vale de lágrimas”61 . Enoch e Elias são exemplos de quem “se resolve a deixar o mundo ao mundo, e acabar a vida antes da morte”62 . O final do sermão apresenta uma preciosa chave de ouro: “Acabando desta maneira a vida, esperaremos confiadamente a morte, e por benefício do pó que somos, [...] não temeremos o pó que havemos de ser”63 . Fim do segundo ato desse espetáculo em três atos.

Terceiro Sermão de quarta-feira de cinza (Para ser pregado na Capela Real)

Este sermão não foi pregado porque o Padre Vieira adoeceu. A epígrafe de agora é a parte final do primeiro sermão: Pulvis es, et in pulverem reverteris. E a prédica se inicia com essa espécie de “sentença de morte”64 contra todos os homens, a começar, naturalmente, por Adão. Afirmando o caráter inapelável da morte, a Igreja “escreve na testa [do fiel] com a cinza”65 tal sentença. A cinza é a substância residual do fogo; portanto, simboliza o resíduo do corpo depois da extinção da vida. Diante da óbvia constatação de que “amamos a vida, e tememos a morte”66 , o pregador propõe uma inversão nessa lógica: “a morte, que tanto tememos, deve ser a amada, e a vida, que tanto amamos, deve ser a temida”67 . E por quê?, indaga. A resposta vem em forma de outro quiasmo: “o maior bem do pó que somos, é o pó que havemos de ser: e o maior mal do pó que havemos de ser, é o pó que somos”68 . Nesse momento, o sermonista faz a invocação do auxílio da graça de Deus para lograr seu intento.

Na parte II, o jesuíta vale-se da sabedoria de Salomão – a maior autoridade humana –, que garante “que muito melhor é a sorte dos mortos, que a dos vivos”69 . Maior que a sabedoria de Salomão, só a de Cristo, que, diante de Lázaro, se alegra quando sabe que ele está morto e chora quando o ressuscita. A ressurreição de Lázaro foi um acontecimento feliz para todos, e “só ao mesmo Lázaro esteve mal”70 porque foi devolvido a todas as canseiras desta vida. Aqui transcrevemos mais um dentre muitos exemplos do “discurso-cebola” (feito de muitas camadas) que o Padre Vieira usa para envolver o ouvinte / leitor no rodopio vertiginoso de seu raciocínio: “a ressurreição o tirou do descanso para o trabalho, [...] da paz para a guerra, do porto para a tempestade [...] enfim, da liberdade em que tinha posto a morte, para o cativeiro e cativeiros da vida”71 . Ufa! Nessa altura do sermão, o ouvinte já deve estar tonto de tanto girar sobre o mesmo eixo. Mas, também, certamente, já está totalmente à mercê do pregador.

A parte III é um desfile de grandes homens que deram fim à própria vida (sempre por razões muito nobres), ou que imploraram a Deus esse fim. Não escapará ao ouvinte / leitor atento o atrevimento do Padre Vieira de resvalar na controvertida questão do suicídio (sem mencionar sequer uma vez essa palavra-tabu), tão rigorosamente condenado pela Igreja Católica.

Na parte IV, o pregador lembra a história de Elias, que fugiu de Jezabel por temor da morte. Mas, depois de passar por insuportáveis sofrimentos e chegar ao mais completo desamparo, “pedia a morte”72 . O orador cita, em seguida, o grande tirano Lico, dizendo “que quem matava a todos, não sabia ser tirano [...] para ser verdadeiramente tirano e cruel [...] havia de dar [...] aos felizes a morte, aos miseráveis a vida”73 . Requintes de crueldade! O ápice dessa argumentação persuasiva, feita de variados exemplos dentro de uma unidade de propósito, seria mostrar como agiu o supremo juiz, que é Deus, diante do pecado de Adão e Eva: “No paraíso ameaçou-os com a morte, no desterro castigou-os com a vida”74 . O pregador finaliza: “Cuidam alguns, que não matar Deus Adão e Eva foi misericórdia, e não foi senão justiça”75 .

Na parte V, o Padre Vieira tenta desenganar os felizes que “se enganam com a sua felicidade”76 e procura convencer seu auditório de que “a morte é o maior bem da vida”77 . O sermonista inicia seu raciocínio pela saúde, “o [bem] mais necessário”78 , argumentando que as ciências médicas curam enfermidades particulares, e que só a morte “cura em um momento a todas [as doenças]”79 .

Na parte VI, o foco do jesuíta incide sobre os “bens da fortuna”80 , começando pelos “cetros e coroas [que] levam após si [...] os aplausos e adorações”81 , e mostrando que, por “debaixo da pompa e aparatos [estão] os temores, os desgostos e tristezas que os comem e roem por dentro”82 . A já referida técnica amplificatória continua sua escalada feita de contradições: “Os reis são senhores de todos, mas também cativos de todos. A todos mandam como reis, e de todos são julgados como réus”83 . Os ouvidos agudos detectam logo a semelhança sonora entre as palavras “reis” e “réus”. De vez em quando, o pregador sente necessidade de estancar a vertigem do próprio pensamento e lembra ao auditório e a si próprio: “Mas o meu intento só é descobrir as misérias dos felizes84 .

A alegoria seguinte não nos parece estranha e já veremos o motivo: o rei Giges consulta o oráculo de Apolo para saber se existia alguém mais feliz que ele. (A sensação de algo familiar agora está clara: quem não se lembra de uma rainha perguntando ao seu oráculo, isto é, ao seu espelho: – Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu? A resposta foi que existia Branca de Neve.). Nessa história do rei Giges, o oráculo desilude-o, dizendo que Aglau Sofídio, um pobre e velho lavrador, era mais feliz que o rei. Paradoxalmente, podemos dizer que esse pregador “ilude” seu auditório para melhor desiludi-lo.

O pregador finaliza essa parte com a história do virtuoso rei Josias, que recuperou “os ritos e cerimônias da Lei”85 , combatendo a idolatria e as superstições, restaurando o culto do “verdadeiro” Deus. E o que faz Deus? Destrói Jerusalém; todos seus habitantes são “levados cativos a Babilônia”86 . Deus faz, ainda, com que o rei morra antes desse cativeiro e os idólatras vivam muitos anos. Nessa altura do sermão, os ouvintes / leitores já sabem a explicação das aparentes incongruências, mas o pregador não perderia a chance de bater e rebater uma tecla já tão gasta e “recolhe” todos os elementos “disseminados” neste fecho: Em suma, que conservou Deus a vida ao povo porque o quis castigar, e antecipou a morte ao rei, porque o quis livrar do castigo”87 . Vale chamar a atenção, ainda, para dois superlativos utilizados pelo pregador nessa parte do sermão: um adjetivo, “zelosíssimo”88 , e um advérbio, “rigorosissimamente”89 , sublinhando, outra vez, o papel do superlativo como agente de ênfase.

No início da parte VII, o orador vai mostrar que, se os “bens da fortuna” se perdem, o mesmo acontece com os “bens da graça” e, retomando (nos sermões do Padre Vieira, nada se perde, tudo se retoma) a distribuição triádica dos elementos, associada à cadeia anafórica (batizada por Helmut Hatzfeld como “técnica de eco”), argumenta: “Caiu Sansão, caiu Salomão, caiu Davi: e nem ao primeiro a sua fortaleza, nem ao segundo a sua sabedoria, nem ao último a sua virtude os tiveram mão para que não caíssem”90 . As estruturas frasais repetem-se exaustivamente, e a disseminação tripartite dos dados prossegue: “O mundo todo é precipícios, o Demônio todo é laços, a carne toda é fraquezas”91 . Quem pode socorrer o homem, em cujo peito se trava o combate entre a “graça” e os “vícios”? Todos os ouvintes / leitores estão pensando a mesma resposta; e o pregador, para o encantamento de todos, “adivinha” este uníssono pensamento: “Já sabem todos que hei-de dizer, que só a morte; e assim é”92 . Por isso mesmo, é até “chover no molhado”, a essa altura do último sermão, repetir que a morte (sempre na perspectiva do pregador) é o maior bem da vida.

Nessa mesma passagem, o Padre Vieira diz que “os homens não entendem as razões de Deus”93 . O pregador não o diz, nem poderia dizê-lo, mas o auditório acaba vendo nele esse intérprete autorizado da palavra de Deus, ou seja, ele “entende” e traduz os hieróglifos divinos.

Na parte VIII, o orador busca apoio para suas teses em Sileno, um dos sábios da Antiguidade, que o jesuíta chama de gentios, porque viveram antes de Cristo. Consultado pelo rei Midas sobre qual seria o maior bem desta vida, Sileno responde: “O melhor de tudo é não nascer; mas no caso de haver nascido, muito melhor é ao homem o morrer, que o viver”94 . Não deixa de impressionar a ousadia desse pregador jesuíta ao avalizar, de algum modo, uma negação tão radical da vida (“não nascer”). Na literatura brasileira, só reencontraríamos idêntico niilismo no século XIX, no capítulo “Das negativas”, em Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”95 .

Nas teorias do Barroco, lê-se sobre o “gosto do Paradoxo” e a “conciliação dos contrários”. Podemos encontrar os dois traços estilísticos nesta mesma passagem: “Assim ajustou e concordou o Apóstolo dois extremos tão contrários, como a morte e a vida: assim quis introduzir no mundo uma morte viva e uma vida morta96 .

Antes do Romantismo, a originalidade não tinha o prestígio que veio a ter mais recentemente. Leiamos esta estrofe de Góngora (não terá ele também imitado algum antecessor?):

Compare-se com Gregório de Matos:

Há uma passagem, na última parte desse terceiro sermão, que lembra as citações anteriores: “porque tudo [...] é vaidade, é fumo, é vento, é sombra, é nada”98 . Não estaria no Eclesiastes a matriz de todas essas expressões?

A derradeira reflexão do pregador, junto com os fiéis, é que todos façam com que “o pó que havemos de ser [...] sobre a terra como planta, e debaixo da terra como raiz, seja fecundo, e na vida colhamos dele [pó] o fruto da graça, e na morte o da glória”99. O gran finale do espetáculo é apoteótico, porque, durante todo o fascinante percurso de analogias e alegorias, tão bem-amarrado, o pregador já tem a plateia nas mãos, ou melhor, como numa tela barroca, o auditório está rendido bem abaixo dos pés do orador, que está no alto, no púlpito. Pena que esse terceiro sermão não tenha sido, na realidade, pregado pelo Padre Vieira, que estava enfermo no dia em que proferiria essa peça oratória.

CONCLUSÃO

Repassemos as “voltas” dadas pela argumentação do Padre Vieira, mediante uma síntese radical de todas as partes de cada sermão.

Primeiro sermão: O pó presente, para o qual seria necessário o entendimento; o pó futuro, para o qual basta a vista (I). Alegoria da vara e da cobra (II). As analogias com Jó e Abraão, a análise semântica da forma verbal reverteris (III). A bela alegoria do pé de vento que levanta o pó (os vivos), a calma do vento que aquieta o mesmo pó (os mortos) e a imagem da “roda viva” (IV). Uma fala ao pó que pode ouvir (os vivos) e uma advertência a Roma, que é viva e morta simultaneamente (V). Memento dos mortos por meio da fala aos que não podem ouvir (os mortos); a imagem da Fênix (VI). Reflexão final sobre a morte; pedido aos mortos que desenganem os vivos; analogia com a escada de Jacó (VII).

Segundo sermão: Proposição: a Igreja prega duas coisas: pó (que somos) e pó (que havemos de ser). Esperança de que os dois pós se anulem mutuamente (I). Recomendação aos fiéis para que acabem a vida antes da morte (os exemplos de Santo Ambrósio e Davi); salvar-se ou não se salvar, eis a questão (II). Explicação da primeira das três coisas que fazem terrível a morte: ser uma. Só se aprende a morrer morrendo (III). Explicação da segunda coisa que faz terrível a morte: ser certa (IV). Explicação da terceira coisa que faz terrível a morte: ser momentânea; duas consequências eternas de tal momento: ver Deus ou carecer de Deus (V). Exortação aos fiéis para que acabem com a vida antes da morte (VI). Os exemplos de Carlos V, Enoch e Elias, que deixaram suas vidas antes de morrer (VII).

Terceiro sermão: O significado da cinza. Proposição: o maior bem da vida é a morte, o maior mal da morte é a vida (I). O exemplo de Salomão, a ressurreição de Lázaro e as reações de Cristo diante de Lázaro (II). Os exemplos dos Passianos, dos estoicos e de Moisés (III). Lico, o verdadeiro e maior tirano; o castigo de Deus a Adão e Eva (IV). A instabilidade da saúde, o maior bem da pessoa humana; as mortes de Catão (V). O que há por trás da pompa e dos aparatos; Giges e Aglau Sofídio, Deus e Josias (VI). Os homens não entendem as razões de Deus (VII). Sileno e sua opção pela morte; a morte de Agamedes e Trofônio (VIII). São Paulo propõe dois paradoxos: a “morte viva” e a “vida morta”; o pregador espera que o pó que somos seja fecundo (IX).

Essa síntese foi a “recolha” possível de ser feita depois da longa “disseminação” empreendida durante a maior parte deste trabalho. Ah, espelhos barrocos!

Tendo agora a visão de conjunto dos três sermões, impressionam os desdobramentos (“glosas”) que o orador consegue criar a partir da epígrafe do primeiro sermão (“mote”). Essa frase é explorada em todas as suas possibilidades semânticas (e até em algumas impossibilidades, fruto do atrevimento do próprio orador).

O Padre Vieira lançou mão, nos três sermões que acabamos de comentar, de todo o seu vasto arsenal de recursos retóricos: fábulas, casos, episódios da vida de santos e personagens bíblicas, textos de “gentios” e, principalmente, da Bíblia (o texto sagrado é prova suficiente e final de qualquer argumento), que o jesuíta coloca, com enorme talento, a serviço dos pressupostos que ele pretende defender. Tudo lhe serve para concretizar e sacralizar seus pontos de vista (os mesmos do catolicismo tridentino).

Não é tarefa fácil manter o alto nível de desempenho retórico ao longo de três sermões sobre o mesmo assunto: a cerimônia litúrgica da cinza. O que sustenta o interesse do auditório é a renovação constante das imagens, analogias e alegorias, a “esperteza” retórica de levantar “obstáculos” cada vez mais difíceis, demolidos todos pela astúcia do “jogador”.

Os engenhosos pregadores da Contrarreforma, tendo como grande destaque o Padre Antônio Vieira, sentem-se autorizados a detectar os sinais divinos nas ações humanas. Não basta uma bela forma, é necessária a eficácia. Para obter sucesso, além da dignidade do pregador, importa competência retórica, como o Padre Vieira esbanjou nos sermões comentados. Por ser o artista que é, mereceu de Fernando Pessoa o título de “Imperador da Língua Portuguesa” e seus sermões são lidos e estudados até hoje com o mesmo encantamento e fervor dos que tiveram o privilégio de ouvir, ao vivo, o timbre poderoso de sua voz.