Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845 em Póvoa do Varzim, fruto dos amores secretos de Carolina Augusta Pereira de Eça e de José Maria Teixeira Queirós. Faleceu no ano 1900, com apenas 55 anos de idade. A jovem Carolina deu à luz secretamente, em casa de Francisco Augusto Soromenho, empregado da fiscalização do pescado da Póvoa. A carta que ela recebeu do pai da criança, bastante curta, intriga os estudiosos da biografia do escritor português.
Senhora:
Ponte de Lima, 18 de Novembro de 1845
Recebi carta de meu pai, que novamente me recomenda a creação de meu filho e se me oferece para mandá-lo crear no Porto, em companhia de minha família, quando a senhora n’isto convenha. Espero pois a sua resposta para nessa inteligência escrever a meu pai.
Elle me recomenda igualmente – e também o desejo – que no Assento de Baptismo se declare ser meu filho, sem todavia se enunciar o nome da mãe. Isto é essencial para o destino futuro do meu filho, e para que, no caso se verificar o meu casamento consigo – o que talvez haja de acontecer brevemente – não seja precisa em tempo algum justificação de filiação. Espero que se ponha ao nosso filho o meu ou o seu nome, conforme deva de ser.
Adeus. Acredite sempre nas sinceras tenções – e agora mais do que nunca –
Queiroz
Fruto de uma relação não legítima, foi criado por uma modesta família de Vila do Conde, cidade vizinha
daquela onde nasceu. Recebia constantes visitas de seus pais, que só depois de quatro anos,
em 1989,
legalizaram o nascimento do filho, quando então se casaram.
Desde o nascimento, as polêmicas sempre estiveram presentes na vida de Eça de Queirós. Ele
viveu
verdadeiras revoluções íntimas e as expôs como ficção em muitas das suas obras. A estudiosa Anya Moura
(2012) afirma que a “revolução íntima vem do paradoxo de viver em uma época em que o Romantismo impregnava
as almas, e de trocar sentimentos e emoções por uma visão cientificista, adotando uma atitude de analista
social”.
Como jovem universitário, Eça participou, em 1871, das Conferências do Casino Lisbonense, um conjunto de
palestras realizadas pelo grupo do Cenáculo, reunião de escritores e intelectuais da Geração de 1970, a qual
era formada pelos iniciadores do Realismo / Naturalismo. Os principais autores dessa geração são: Antero de
Quental, Eça de Queirós, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e Guerra Junqueiro. Observe as
considerações do professor Jayme Barros (1999)
a respeito dessas conferências:
Em Lisboa, já formados, os escritores “coimbrãos” se encontram e o grupo se amplia e forma-se o Cenáculo.
Este grupo planeja e realiza, no Cassino Lisbonense, as Conferências Democráticas. Eça já participa do
grupo. O objetivo dessas conferências era tirar Portugal do atraso político e cultural em que vivia.
Antero
de Quental, líder do grupo, fez as duas primeiras, abordando as causas da decadência dos povos
peninsulares,
definindo como principais o catolicismo,
o absolutismo e o colonialismo.
Eça faz a terceira, definindo o Realismo como a nova expressão da arte e da literatura. Diz ele: “O
Realismo
é a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas. É a abolição da
retórica considerada como arte de promover a comoção usando a inchação do período, da epilepsia da
palavra, da congestão dos tropos. É a análise com o fito da verdade absoluta. Por outro lado, o Realismo
é uma
reação contra o Romantismo:
o Romantismo era a apoteose do sentimento; o Realismo é a anatomia do
caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que
houver de mau na
nossa realidade.” (BARROS et al, 1999)
Como os realistas franceses, a Geração de 1970 queria uma “arte viva”, capaz de servir como arma de combate, voltada para a reforma do corpo social e com a educação como uma de suas preocupações. Entretanto, logo o governo português interveio e proibiu a continuação das conferências, alegando que elas atentavam contra a religião e as leis do país.
Com os romances O crime do Padre Amaro (1875) e O primo Basílio (1878), Eça consolida a ficção realista / naturalista em Portugal. O Eça dessa época é o mais conhecido e estudado: um escritor incisivo, sarcástico e bastante irônico para com as estruturas sociais do seu tempo. Mas, como bem atesta o estudioso Maurício R. Silva,
há um outro Eça, visível apenas na face oculta do espelho. É o Eça que dá asas ao puro sonho, à quimera
literária, e,
em suas próprias palavras, ao ‘realismo fantasista da farsa’. É desse segundo Eça de
Queirós, idealista e visionário,
que A Relíquia será fruto, como já havia sido fruto,
anteriormente, O
Mandarim, de 1880. (SILVA, 1996)
A Relíquia foi publicado em 1887, causando uma série de estranhamentos para os leitores que, muitas vezes, achavam a narrativa “moderna demais” para o seu tempo.
A evolução literária de Eça de Queirós é dividida em três fases:
• Primeira fase (1866 a 1875): iniciou sua carreira literária como autor de
folhetins e posteriormente reuniu esses textos na obra Prosas bárbaras, em 1866, dando início à
sua
primeira fase literária, que terminaria em 1875, com a publicação de O crime de Padre Amaro.
Nessa
fase, revela-se influenciado pelo Romantismo,
e seus textos foram marcados pela indecisão e
humanização da natureza.
• Segunda fase (1878 a 1888): Eça se torna adepto das teorias do Realismo. Esta fase, diz Saraiva e Lopes (1996), “esboça um panorama de crítica social cultural que poderia constituir um programa de inquérito à vida portuguesa” (p. 900). Além das reflexões sobre os maus hábitos da sociedade portuguesa do século XIX, Eça destina especial atenção ao clero, atribuindo-lhe um comportamento hipócrita e manipulador. É nesta fase que ele escreve suas principais obras: O Primo Basílio (1878), O mandarim (1880), A Relíquia (1887) e Os maias (1888).
• Terceira fase (1889-1900): ao contrário do pessimismo e das duras críticas
estabelecidas no período anterior,
na terceira e última fase, percebemos uma tendência ao
otimismo,
valorizando o espírito e a alma, além da vida simples do interior em oposição à agitada vida urbana.
Dessa
fase, destacam-se como obras principais: Correspondência de
Fradique Mendes (1889-90), Dicionário
de milagres (1900), A
Ilustre Casa de Ramires (1900)
e A Cidade e as Serras (1901,
obra
póstuma).
O Realismo em Portugal foi uma tentativa de tirar a conservadora e atrasada nação portuguesa de uma mentalidade presa aos princípios românticos e cristãos. Os artistas queriam inserir Portugal no “espírito moderno” que sacudia outras nações europeias.
O Realismo teve início em Portugal com a Questão Coimbrã, episódio ocorrido nos anos 1865 e 1866 que pode ser apontado como um marco do fim do Romantismo. Questão Coimbrã é o nome dado às polêmicas estabelecidas entre os intelectuais da época, que discordavam sobre a produção literária portuguesa e, de forma mais ampla, sobre a situação de seu país ao final daquele século. A exposição das discussões e queixas dos intelectuais – a maioria formada na Universidade de Coimbra, o que justifica o nome do movimento – se dava por meio de poemas, artigos e cartas publicadas nos periódicos da época.
Consolidado o liberalismo português, o país conheceu, a partir de 1850, um período de estabilidade política, de progresso material e de intercâmbio com o resto da Europa. Já em 1964, Coimbra, um importante centro cultural e universitário da época, ligava-se diretamente à comunidade europeia por meio da estrada de ferro. No entanto, apesar dessas novidades no cenário político-cultural, a literatura portuguesa ainda se encontrava impregnada de velhas ideias românticas e árcades.
O professor Dr. Ulisses Infante (2003) define como características do Realismo / Naturalismo:
I. precisão descritiva;
II. personagens meticulosamente construídos;
III. valorização dos personagens em detrimento do enredo;
IV. análise do comportamento do homem na sociedade;
V. contaminação da literatura pela filosofia e ciência:
• o positivismo de Augusto Comte;
• o determinismo positivista de Hippolyte Taine;
• as ideias socialistas de Karl Marx e Friedrich Engels;
• o materialismo.
VI. romance realista = romance documental; romance naturalista = romance experimental;
VII. terminologia de sabor científico e comparações depreciativas;
VIII. denúncia das mazelas sociais.
As professoras Maria Luiza Abaurre e Marcela Pontara (2015) apontam outras características:
I. mudança da face de Portugal pela Revolução Industrial;
II. paradoxo capitalista: desenvolvimento e miséria;
III. sociedade no centro da obra literária;
IV. racionalismo e objetividade;
V. contemporaneidade;
VI. materialismo;
VII. anatomia do caráter;
VIII. interesse coletivo;
XIX. linguagem: a força das descrições cruéis.
Agora, observe como o próprio Eça de Queirós sintetiza as características do Realismo:
I. o Realismo deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea. Deste princípio, que é basilar, que é a primeira condição do Realismo, está longe a nossa literatura (a oitocentista!) A nossa arte é de todos os tempos, menos do nosso;
II. o Realismo deve proceder pela experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos caracteres;
III. o Realismo deve ter o ideal moderno que rege as sociedades – isto é: a justiça e a verdade. (QUEIRÓS apud MATOS, 2016).
Quanto à obra A Relíquia, na ocasião de sua publicação, o já muito badalado Eça de Queirós a submeteu a um concurso literário da Academia Real das Ciências de Lisboa (para ele, berço da “literatura tradicional e conservadora”). Essa obra não teve êxito, muito pelo contrário; o estudioso e crítico Pinheiro Chagas, que era relator do júri, teceu críticas ácidas, desqualificando-a por completo.
O estudioso Álvaro Lins diz que A Relíquia não “pertence à primeira parte nem a última parte da
produção de Eça.
Mas ela realiza, no destino do escritor, a sua primeira evasão do Naturalismo para o
domínio da fantasia, que sempre o atraiu” (LINS, 1959, p. 84). Apesar de estar inserida na parte “realista”
do crítico (para a maioria dos estudiosos), Antônio José Saraiva (1992) a coloca em um subgrupo em que o
escritor expandiria suas ideias baseando-se em dois princípios:
a tese e a fantasia.
São muitas as discussões em torno dessa obra espetacular do irreverente Eça de Queirós. Em uma outra direção, João Gaspar Simões afirma que A Relíquia seria uma obra malograda, porém capaz de demonstrar maior maturidade do escritor: ”Para sentir-se em liberdade, bastava-lhe um tema em que não fosse preciso observar, analisar ou imaginar dentro da fronteira do real.” (SIMÕES, 1973, p. 476). Por fim, observemos o que João Medina diz sobre o conteúdo da tão debatida obra: o livro apresenta “matéria suficiente para escandalizar os espíritos religiosos e bem pensantes da sociedade burguesa do seu tempo, no fundo tão conformista e devota”. (MEDINA, 2000, p. 98) Medina ainda assegura que
Eça apenas se utiliza de certa fantasia, por meio do sonho de Teodorico e depois pela materialização de sua consciência, para mostrar que todas as coisas poderiam ter dois sentidos. Que a mentira cobre uma verdade, que a fantasia esconde uma autêntica nudez; em outras palavras, esses fatores impedem que a verdadeira consciência se firme e seja capaz de mostrar o bem e o mal, e essa consciência encontrava-se dentro de si próprio. (MEDINA, 2000, p. 100)
Após uma série de considerações, é possível perceber que Eça de Queirós, em A Relíquia, faz irônicas e diretas críticas ao típico burguês (e às suas formas de ascensão social) de Portugal da segunda metade do século XIX, assim como aos costumes hipócritas nos quais estava imersa a cultura portuguesa, que atribuía às práticas religiosas mais um dos diversos meios para os indivíduos serem integrados às benesses do capital e do luxo. O autor, não se pode deixar de registrar, também ironiza bastante o cientificismo naturalista da época.
Beatriz Berrini, investigadora brasileira de literatura e especialista na obra de Eça de Queirós, assegura
que em
A Relíquia, Eça “está mais uma vez exercendo seu poder de observador da realidade na
qual está inserido e, como não podia deixar de ser, registra suas críticas explicitamente a partir da
narrativa de Teodorico”. Eça não poupa críticas à sociedade lusitana da segunda metade do século XIX. De
modo metonímico, o escritor destila a sua ironia ferina ao partir de uma parte (Teodorico) para o todo
(sociedade portuguesa). Assim, segundo Berrini,
Eça opera uma crítica sem complacência alguma, na verdade, que vai fundo e atinge não somente, numa e
noutra,
o mundo português, mas a sociedade contemporânea e o ser humano em geral, de qualquer tempo e
espaço.
Talvez pelo fato do humor estar mais presente, e o autor buscar o exagero caricatural, mais
esquematizador,
para dar a sua visão da sociedade e do homem, tal obra parece menos virulenta. (BERRINI, 1997, p. 61).
A discussão em torno do gênero da obra A Relíquia é antiga. Observemos o que afirma Ana Paula Foloni Gamba (2005): “O autor procurou ser claro e objetivo desde o início, lançando a ideia da presença do elemento fantasista já na célebre epígrafe “Sobre a nudez forte da Verdade – o manto ‘diáfano’ da Fantasia”,” que abre seu texto.
A ideia de “evasão” e “fuga” é apenas aparente na obra de Eça de Queirós, pois ele nunca abandonou a análise do comportamento humano, a crítica social e a sátira de costumes. O que ele fez, na verdade, foi “camuflar” a impertinente tirania da realidade, tornando o estudo desta menos “áspero”. Para isso, adotou um gênero que se baseia justamente na mescla da realidade e da fantasia, da comicidade e da seriedade filosófica.
Maurício R. Silva (1996), estudioso das obras de Eça, portanto, traz outras frentes, ao afirmar que a obra é
uma miscelânea de gêneros literários: trata-se de uma fábula? De um romance? Uma farsa? Ou uma narrativa nos moldes do Realismo-Naturalismo? O que é ela, enfim? Na verdade, essa questão não tem resposta. Mais recentemente, por influxo do estudioso francês Valéry Larboud, que travou contato com a ficção queirosiana e dela se tornou um entusiasta, há uma forte tendência para classificar A Relíquia como romance picaresco, construído à maneira de narrativas de aventuras em que figuram heróis pícaros, novelas bastante populares na Espanha do século XVI. Por pícaro entende-se o anti-herói, o protagonista mau-caráter, em geral um andarilho, um espertalhão ou finório, cujas peripécias e sucessos acabam por denunciar a forma de vida de camadas populares da época. (SILVA, 1996)
A obra é dividida em cinco capítulos, e seu prefácio é de suma importância para o entendimento do livro. Assim começa a “peregrinação” de Teodorico Raposo, o debochado e pícaro Raposão para os amigos de farra:
Decidi compor, nos vagares deste verão, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha vida – que neste século, tão consumindo pelas incertezas da inteligência e tão angustiado pelos tormentos do dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte.
Em A Relíquia, Eça apresenta um tom sarcástico e expressivo de crítica social contra a devoção religiosa fingida, relacionada aos valores católicos de seu tempo, e a hipocrisia. De modo geral, o enredo dessa obra pode ser dividido em três partes, sendo que a principal é desenvolvida com base nas lembranças de viagens; já as outras duas delineiam a vivência da personagem D. Maria Patrocínio das Neves, que é exageradamente beata; além de traçar, também, um apanhado psicológico do sobrinho de D. Patrocínio, Teodorico Raposo, homem cujas tendências são liberais e libertinas, representando a hipocrisia.
Em relação à viagem que fizera e já anunciando de forma pincelada o que aconteceu (o narrador está distante dos fatos narrados, mas contará de maneira que parece que os fatos vão-se desenrolando à medida que transcorre a narrativa), Teodorico dirá:
Em 1875, nas vésperas de Santo Antônio, uma desilusão de incomparável amargura abalou o meu ser; por esse tempo minha tia, D. Patrocínio das Neves, mandou-me do Campo de Santana onde morávamos, em romagem a Jerusalém; dentro dessas santas muralhas, num dia abrasado do mês de Nizam, sendo Pôncio Pilatos procurador da Judeia, Élio Lama, Legado Imperial da Síria, e J. Cairás, Sumo Pontífice, testemunhei, miraculosamente, escandalosos sucessos; depois voltei, e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral.
Com uma excessiva descrição (que muitas vezes cansa o leitor desavisado), o narrador-personagem discorre sobre sua peregrinação “pelas terras santas”, mas sem deixar de lado, jamais, a sua ironia fina e a sua crítica social.
Esta jornada à terra do Egito e à Palestina permanecerá sempre como a glória superior da minha carreira; e bem desejaria que dela ficasse nas letras, para a posteridade, um monumento airoso e maciço. Mas hoje, escrevendo por motivos peculiarmente espirituais, pretendi que as páginas íntimas, em que a relembro, se não assemelhassem a um Guia Pitoresco do Oriente. Por isso (apesar das solicitações da vaidade), suprimi neste manuscrito suculentas, resplandecentes narrativas de ruínas e de costumes...
A narrativa se passa na segunda metade do século XIX, em Lisboa, e tem como protagonista e narrador Teodorico Raposo, o Raposão, órfão de pai e mãe. O primeiro capítulo da obra se inicia assim:
Meu avô foi o Padre Rufino da Conceição, licenciado em teologia, autor de uma devota Vida de Santa Filomena, e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assunção, chamava-se Rufino da Assunção Raposo, e vivia em Évora com minha avó, Filomena Raposo, por alcunha a “Repolhuda”, doceira na Rua do Lagar dos Dízimos. O papá tinha um emprego no correio, e escrevia por gosto no Farol do Alentejo.
Teodorico Raposo será criado por uma tia beata e bastante rica! Quando ele chegou à casa da carola, foi logo advertido:
– Esta é a Titi – disse-me o Senhor Matias. – É necessário gostar muito da Titi... E necessário dizer sempre que sim à Titi!
Lentamente, a custo, ela baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu senti um beijo vago, de uma frialdade
de
pedra;
e logo a Titi recuou, enojada.
– Credo, Vicência! Que horror! Acho que lhe puseram azeite no cabelo!
Assustado, com o beicinho já a tremer, ergui os olhos para ela, murmurei:
– Sim, Titi.
Então o Senhor Matias gabou o meu gênio, o meu propósito na liteira, a limpeza com que eu comia a minha sopa à mesa das estalagens.
Teodorico foi educado de maneira “espartana” em relação aos preceitos católicos (observe que já aparece de forma clara a crítica de Eça ao fanatismo lusitano e à crença cega nos representantes da Igreja). Titi impôs uma formação católica ao garoto, acreditando doentia e cegamente nos valores cristãos. Quando rapaz, Teodorico não chegou a ser um ateu convicto, mas debochou de muitos ritos do catolicismo praticados por sua tia. Em verdade, Eça caçoa da Portugal piegas dos oitocentos.
Depois de um período estudando nos Isidoros e passando um domingo por mês com sua tia, Teodorico foi enviado para Coimbra, onde encerrou seus estudos. Lá viveu, de fato, uma vida desregrada e libertina, apesar das tantas recomendações da tia Patrocínio.
Um dia, o nosso bom procurador disse-me que eu não voltaria mais para os Isidoros, indo acabar os meus preparatórios em Coimbra, na casa do Doutor Roxo, lente de teologia. Fizeram-me roupa branca. A Titi deu-me num papel a oração que eu diariamente devia rezar a São Luís Gonzaga, padroeiro da mocidade estudiosa, para que ele conservasse em meu corpo a frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor. O Padre Casimiro foi-me levar à cidade graciosa, onde dormita Minerva.
Após essa longa época de estudos em Coimbra (e de farra, “relaxações” e bebedeiras), Raposo retornou a Lisboa. Apesar de advogado formado, não exerceria a advocacia. Na verdade, Teodorico se empenhou na missão de se tornar o único herdeiro de Titi (para ele, uma mulher insuportável) e, para isso, assumiu compromissos com a Igreja e com a tia beata, que sempre recebeu alguns amigos nos jantares em casa, dentre eles os Padres Casimiro e Pinheiro, além do Doutor Margaride.
Teodorico teve uma vida dupla e dissimulada, pois na rua era o mulherengo boêmio, mas dentro da casa da tia foi quase “um santo”.
Certo dia, Teodorico encontrou um velho amigo de farra, o Rinchão, que o convidou a ir à casa de uma amiga sua:
Era o Silvério, por alcunha o Rinchão, meu condiscípulo, e companheiro de casa das Pimentas. Estivera passando esse mês no Alentejo, com seu tio, ricaço ilustre, o Barão de Alconchel. E agora, de volta, ia ver uma Ernestina, rapariguita loura, que morava no Salitre, numa casa cor-de-rosa, com roseirinhas à varanda.
– Queres tu vir cá um bocado, ó Raposão? Está lá outra rapariga bonita, a Adélia... Tu não conheces a Adélia? Então, que diabo, vem ver a Adélia... É um mulherão!
Era um domingo, noite de partida da Titi; eu devia recolher religiosamente às oito horas. Cocei a barba, indeciso. O Rinchão falou da brancura dos braços da Adélia; e eu comecei a caminhar ao lado do Rinchão, enfiando as luvas pretas.
Adélia passou a ser uma constante tentação para Teodorico, e em quase todas as noites o jovem corria para os braços da rapariga. Uma noite, porém, andando pela antiga Lisboa, Raposo encontrou o Doutor Margaride, que disse que o jovem tem um “inimigo” no que diz respeito ao recebimento da herança da tia. Teodorico ficou nervoso e, ao escutar que Jesus era o seu rival, decidiu lutar contra uma terrível possibilidade: a de sua tia deixar tudo para as “irmandades de sua simpatia e a padres da sua devoção”.
Passado o susto inicial, Teodorico se animou com o consolo de Margaride: “Você vem a herdar tudo, se D. Patrocínio, sua tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como deixá-la à Santa Madre Igreja”. A partir de então, ele exagerava nas encenações para impressionar a fanática senhora. Esta parte da narrativa chega a ser caricata, pois o jovem se lança no oratório para se mostrar à tia, porém, na verdade, tudo não passava de teatralização, pois ele só pensava nos amores e nas riquezas da herança que a tia deixaria para ele.
Apesar de tantas amostras de fé e de penitências, o jovem se revoltava com a resistência da velha, pois mesmo bastante doente, sua saúde resistia como uma pedra! Diante da demora pela morte da tia Patrocínio, Adélia troca Raposo por Adelino, deixando-o bem enfurecido. Agora sem as “relaxações” com Adélia e sem a possibilidade de concretizar o sonho de conhecer Paris, a “cidade da luz”, Teodoro Raposo partirá para a Terra Santa, por sugestão do Padre Casimiro e a “pedido” da beata Titi: “[...] estou decidida a que alguém que me pertença, e que seja do meu sangue, vá fazer por minha intenção uma peregrinação à Terra Santa”. Em princípio, a viagem pareceu um estorvo para o boêmio Raposo, mas logo depois ele começou a pensar nas farras, bebedeiras e mulheres que lá encontraria. E, então, partiu numa manhã de domingo, 6 de setembro e dia de Santa Libânia, prometendo à tia “trazer uma tremenda relíquia!”
A “peregrinação” de Teodorico Raposo ao lado do “ilustre Topsius” – doutor e sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas, homem de saber enciclopédico e caricatura dos “cientistas” do século XIX – começou pela Alexandria.
Foi num domingo e dia de S. Jerônimo que meus pés latinos pisaram, enfim, no cais de Alexandria, a terra do Oriente, sensual e religiosa. Agradeci ao Senhor da Boa-Viagem. E o meu companheiro, o ilustre Topsius, Doutor alemão pela Universidade de Bonn, sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas, murmurou, grave como numa invocação, desdobrando o seu vestíssimo guarda-sol verde:
– Egito! Egito! Eu te saúdo, negro Egito! E que me seja em ti propício o teu Deus Ftá, Deus das Letras, Deus da História, inspirador da obra de arte e da obra de verdade!...
Em Alexandria, o galanteador Raposão se envolve com Mary, uma luveira que ele chamará de Maricoquinhas. Esta “caliente senhorita” deixará de lembrança para Raposão uma camisola com os dizeres: “Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozamos!” Esta singela lembrança será empacotada em papel pardo pelo companheiro Alpedrinha e entregue a Teodorico, que a levará na sequência da viagem.
Certa noite, Teodorico tem um sonho com a sua amante de Portugal, Adélia, e com Mary, a amante da “relíquia”, quando, então, o Diabo aparece. Esse personagem temido e misterioso está presente também em outras obras de Eça. O estudioso Antônio Augusto Nery (2005) afirma:
É interessante notar no sonho como o diabo caracterizado por Eça e narrado por Teodorico diferencia-se daquele conhecido pela tradição. Lúcifer, além de parecer um tipo bonachão, atrapalhado com os cornos, desvencilhando-os dos galhos das árvores (QUEIRÓS, 1976, p. 78-81), é caracterizado por Eça como injustiçado. No ambiente onírico o narrador / protagonista inusitadamente começa a conversar com Satanás, momentos antes da ascensão de Cristo. (NERY, 2005, p. 6)
Lúcifer, apesar de aparentemente ser uma mera personagem secundária, constitui-se um importante ponto de apoio para as críticas veiculadas por Eça de Queirós à Igreja e à religiosidade institucional. Satanás desempenha um papel fundamental na produção do escritor, especialmente quando ele procura fazer menções a conceitos do individualismo moderno e criticar a instituição religiosa oficial de Portugal: a Igreja Católica.
Ainda no caminho à Terra Santa, o português recordou-se da sua “insuportável tia” e do pedido que ela fizera: “traze-me desses santos lugares uma santa relíquia, uma relíquia milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas aflições e que cure as minhas doenças”.
E assim, um dia, vagando nas proximidades do rio Jordão, Teodorico encontrou a tão preciosa relíquia, aliás, a mais importante de todas: a coroa de espinhos que foi legitimada por Topsius. O diálogo que os dois travaram vale a pena ser relido:
– Que pena! A Titi fazia tanto gosto que fosse daqui, Topsius! A Titi é tão rica!...
Então este sagaz filósofo compreendeu que há razões de família como há razões de Estado, e foi sublime. Estendeu a mão por cima da árvore, cobrindo-a assim largamente com a garantia da sua ciência, e disse estas palavras memoráveis:
– D. Raposo, nós temos sido bons amigos... Pode pois afiançar à senhora sua tia, da parte de um homem que a Alemanha escuta em questões de crítica arqueológica, que o galho que lhe levar daqui, arranjado em coroa, foi...
– Foi? – berrei ansioso.
– Foi o mesmo que ensanguentou a fronte do Rabi Jeschoua Natzarieh, a quem os latinos chamam Jesus de Nazaré, e outros também chamam o Cristo!...
O alemão percebeu que Raposo estava preocupado com a relíquia, pois se ela realizasse, de fato, algum milagre, estendendo ainda mais a vida de Titi, seria a ruína de Teodorico. Por isso, o doutor tratou logo de dizer que a coroa de espinhos foi feita de uma outra planta, e não da “verdadeira”. Após uma longa conversa entre os companheiros, Pote, o guia da viagem, entrelaçou o galho, dando-lhe a forma exata de uma coroa. E como ainda necessitavam retornar à Jerusalém, Pote embrulhou a cora “com uma folha de papel pardo e um nastro escarlate”. Observe, portanto, a semelhança entre os embrulhos da camisola de Mary e o da coroa de espinhos: ambos estavam em pacotes de papéis pardos.
É nesta parte que o detalhismo das descrições chega ao ápice.
Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade trêmula, como a de uma tocha fumegante, penetrava na tenda, e através dela uma voz me chamava, lamentosa e dolente:
– Teodorico, Teodorico, ergue-te, e parte para Jerusalém!
Arrojei a manta, assustado; e vi o doutíssimo Topsius, que, à luz mortal de uma vela, bruxuleando sobre a mesa onde jaziam as garrafas de Champagne, afivelava no pé rapidamente uma velha espora de ferro. Era ele que me despertava, açodado, fervoroso: – A pé, Teodorico, a pé! As éguas estão seladas! Amanhã é Páscoa! Ao alvorecer devemos chegar às portas de Jerusalém!
Eça capricha ao retratar a paisagem local, a ambientação cultural e a atmosfera que serviram de fundo para o drama cristão.
Os desbravadores serão “testemunhas vivas” da crucificação de Cristo. Observe a fala do estudioso Topsius:
– D. Raposo! Esta aurora que vai nascer, e em pouco tocar os cimos do Hébron, é a de 15 do mês de Nizam; e não houve em toda a história de Israel, desde que as tribos voltaram da Babilônia, nem haverá, até que Tito venha pôr o último cerco ao templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalém para ver, viva e rumorejando, esta página do Evangelho! Vamos, pois, fazer a santa Páscoa à casa de Gamaliel, que é um amigo de Hilel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanedrim. Foi ele que disse: “para te livrares do tormento da dúvida, impõe-te uma autoridade”. Portanto, a pé, D. Raposo!
Esta longa parte da narrativa é considerada obra-prima da literatura de Língua Portuguesa. Eça toca em um assunto sagrado para os cristãos: a Paixão de Cristo. Ele apresenta os “fatos” como se fossem uma realidade, e não uma representação onírica da crucificação do Messias. Ao final do capítulo, Topsius chama o sonhador Raposo:
– Teodorico, a noite termina; vamos partir de Jerusalém!... A nossa jornada ao passado acabou...
A
lenda inicial do cristianismo está feita, vai findar o mundo antigo!
Eu considerei, assombrado e arrepiado, o douto historiador. Os seus cabelos ondeavam agitados por um vento de inspiração. E o que levemente saía dos seus finos lábios retumbava, terrível e enorme, caindo sobre o meu coração:
– Depois de amanhã, quando acabar o Sabá, as mulheres de Galileia voltarão ao sepulcro de José de Ramata, onde deixaram Jesus sepultado... E encontram-no aberto, encontram-no vazio!...”Desapareceu, não está aqui!...” Então Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por Jerusalém – “ressuscitou, ressuscitou!” E assim o amor de uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais à humanidade!
Ao retornar do longo sonho, alegre com a “milagrosa relíquia” conquistada, Teodorico Raposo seguirá radiante e confiante à Lisboa, em busca da sua almejada herança. No entanto, algumas trapalhadas no trajeto trarão para ele grandes e trágicas consequências.
Ao outro dia, que fora um radioso domingo, levantamos de Jericó as nossas tendas; e caminhando com o sol para ocidente, pelo Vale de Querite, começamos a romagem de Galiléia.
Mas ou fosse que a consoladora fonte da admiração houvesse secado dentro em mim, ou que a minha alma, arrebatada um momento aos cimos da história e batida aí por ásperas rajadas de emoção, não se pudesse já aprazer nestes quietos e ermos caminhos da Síria — senti sempre indiferença e cansaço, do país de Efraim ao país de Zebelon.
Teodorico e Tópsius seguiam em sua viagem de volta ao “Velho Mundo”, quando Raposo perguntou ao doutor sobre a relíquia que daria a tia:
– Oh Topsius, que chelpa isto me vai render! E diga lá amiguinho, diga lá! Então acha que eu posso afirmar à Titi que esta coroa de espinhos foi a mesma que...
O doutíssimo homem, por entre o fumo leve, soltou uma solidíssima máxima:
– As relíquias, D. Raposo, não valem pela autenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram. Pode dizer à Titi que foi a mesma!
– Bendito sejas, doutor!
As palavras do alemão merecem uma reflexão crítica dos leitores, pois trata-se da desconstrução de algo solidificado na história da Igreja Católica: a valorização de todo tipo de “relíquia”. Aqui, Eça destila, mais uma vez, sua crítica à religiosidade lusitana.
Enquanto isso, Teodorico Raposo, apesar de ainda muito longe de Lisboa, já se vira oferecendo à tia a bendita e salvadora relíquia, o presente que, de fato, garantiria a ele toda a herança de D. Patrocínio das Neves.
Chegando a Lisboa, Raposo segue para a casa da tia, ansioso para lhe entregar a redentora relíquia. Por conta
da viagem à Terra Santa, ele será tratado quase como um santo por todos que frequentavam a casa, exceto por
Padre Negrão,
um oportunista e vigarista que ganhara terreno e o afeto (coisa difícil em Titi) da
beata durante a ausência do sobrinho.
A cena da revelação da relíquia, que se deu no oratório, é
hilária para os leitores e trágica para Teodorico:
– Titi, meus senhores... Eu não quis revelar ainda a relíquia que vem aqui no caixotinho, porque assim me recomendou o senhor Patriarca de Jerusalém... Agora é que vou dizer... Mas antes de tudo, parece-me bem a pelo explicar que tudo cá nesta relíquia, papel, nastro, caixotinho, pregos, tudo é santo! Assim por exemplo os preguinhos... são da Arca de Noé... Pode ver, senhor Padre Negrão, pode apalpar! São os da Arca, até ainda enferrujados... É tudo do melhor, tudo a escorrer virtude! Além disso quero declarar diante de todos que esta relíquia pertence aqui à Titi, e que lha trago para lhe provar que em Jerusalém não pensei senão nela, e no que Nosso Senhor padeceu, e em lhe arranjar esta pechincha...
– Comigo te hás de ver sempre, filho! – tartamudeou a horrenda senhora, enlevada. Beijei-lhe a mão, selando este pacto de que a Magistratura e a Igreja eram verídicas testemunhas. Depois, retomando o martelo:
– E agora, para que cada um esteja prevenido e possa fazer as orações que mais lhe calharem, devo dizer o que é a relíquia...
Tossi, cerrei os olhos:
– É a coroa de espinhos!
[...]
– Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! – suspirou a Titi a esvair-se de gosto beato, com o branco do olho aparecendo por sobre o negro dos óculos.
Ergui-me, rubro de orgulho:
– É à minha querida Titi, só a ela, que compete, pela sua muita virtude, desembrulhar o pacotinho!...
Acordando do seu langor, trêmula e pálida, mas com a gravidade de um pontífice, a Titi tomou o embrulho,
fez mesura aos santos, colocou-o sobre o altar; devotamente desatou o nó do nastro vermelho;
depois,
com o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo...
Uma
brancura de linho apareceu... A Titi segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente – e sobre a
ara,
por entre os santos, em cima das camélias, aos pés da cruz - espalhou-se, com laços e rendas, a camisa
de
dormir da Mary!
A camisa de dormir da Mary! Em todo o seu luxo, todo o seu impudor, enxovalhada pelos meus abraços, com cada prega fedendo a pecado! A camisa de dormir da Mary! E pregado nela por um alfinete, bem evidente ao clarão das velas, o cartão com a oferta em letra encorpada: – “Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozamos!” Assinado, M. M.... A camisa de dormir da Mary!
Mal sei o que ocorreu no florido oratório! Achei-me à porta, enrodilhado na cortina verde, com as pernas a vergar, num desmaio. Estalando, como achas atiradas a uma fogueira, eu sentia as acusações do Negrão bradadas contra mim junto à touca da Titi: – “Deboche! Escárnio! Camisa de prostituta! Achincalho à senhora Dona Patrocínio! Profanação do oratório!” Distingui a sua bota arrojando furiosamente para o corredor o trapo branco. Um a um, entrevi os amigos perpassarem, como longas sombras levadas por um vento de terror. As luzes das velas arquejavam, aflitas. E, ensopada em suor, entre as pregas da cortina, percebi a Titi caminhando para mim, lenta, lívida, hirta, medonha... Estacou. Os seus frios e ferozes óculos trespassaram- me. E através dos dentes cerrados cuspiu esta palavra:
– Porcalhão!
Por algum descuido, que nem o leitor mais atento saberá ao certo, Raposo trocou os dois embrulhos, ou melhor, as duas relíquias. Deixou com uma mendiga, no retorno a Lisboa, a coroa de espinhos, trazendo para sua tia a camisola da amante com quem viveu momentos intensos de “relaxações”. O engano custou caro, e Teodorico foi vítima da indignação de Titi, a beata e demonizadora do sexo.
O sobrinho foi expulso de casa, levando apenas a mala com outras “relíquias” que trouxera da Terra Santa. Depois do fatídico incidente, passou a vendê-las na cidade, mas o negócio logo saturou por conta dos exageros na oferta, gerando uma queda brusca nas vendas e levando seu negócio à falência.
Enquanto Teodorico buscava meios para sobreviver, tomou conhecimento da morte da tia, que deixou-lhe apenas um óculos como herança. E como era de se esperar, a velha destinou absolutamente todos os seus bens para algumas irmandades e para os frequentadores dos jantares em sua casa. Até mesmo a quinta do Mosteiro foi doada como herança ao insuportável Padre Negrão, que foi o que mais bens recebeu, deixando Teodorico furioso.
Enquanto estava no hotel, diante da “herança” recebida da tia, Raposo, agora arrependido, teve uma visão fantástica (sonho!). Em um “sonho” (ou “viagem”), Teodorico ouviu “uma voz repousada e suave ‘do além’”, ou a voz de Jesus, que na verdade era a voz da sua própria consciência. A sua “consciência”, naquele instante, proclamava a “inutilidade da hipocrisia” como a lição que ele deveria aprender com aquele episódio.
– Tu dizes que eu te persigo! Não. O óculo, isso a que chamas Profundas Sociais, são obra das tuas mãos –
não
obra minha. Eu não construo os episódios da tua vida; assisto a eles e julgo-os placidamente... Sem que
eu
me mova, nem intervenha influência sobrenatural – tu podes ainda descer a misérias mais torvas, ou
elevar-te
aos rendosos paraísos da terra e ser diretor de um Banco... Isso depende meramente de ti, e do teu
esforço
de homem... Escuta ainda! Perguntavas-me, há pouco, se eu me não lembrava do teu rosto... Eu pergunto-te
agora se não te lembras da minha voz... Eu não sou Jesus de Nazaré, nem outro deus criado pelos
homens...
Sou anterior aos deuses transitórios; eles dentro em mim nascem; dentro em mim duram; dentro em mim se
transformam; dentro em mim se dissolvem;
e eternamente permaneço em torno deles e superior a eles,
concebendo-os e desfazendo-os, no perpétuo esforço de realizar fora de mim o deus absoluto que em mim
sinto.
Chamo-me consciência; sou neste instante a tua própria consciência refletida fora de ti, no ar e na luz,
e
tomando ante teus olhos a forma familiar, sob a qual, tu, mal-educado e pouco filosófico, estás
habituado a
compreender-me... Mas basta que te ergas e me fites, para que esta imagem resplandecente de todo se
desvaneça.
No dia seguinte, casualmente, Teodorico encontrou seu antigo amigo Crispim. Depois de expor suas dificuldades financeiras, o amigo, “filho da firma Teles, Crispim & Cia”, ofereceu-lhe um emprego, ao que de pronto o homem deserdado aceitou. Com o passar do tempo, Teodorico vai mostrando ao patrão que se tornara um homem “melhor”. Um dia, convidado a um almoço seguido da missa na Ribeira, Teodorico conheceu D. Jesuína, irmã solteira do patrão; tinha trinta e dois anos e era zarolha. Ao ver Raposo envolvido com sua irmã, “com um riso de lealdade e estima”, Crispim pergunta se haveria amor verdadeiro à mana Jesuína. “Amor, amor, não... Mas acho-a um belo mulherão; gosto-lhe muito do dote; e havia de ser um bom marido.” Enfim, casam-se Teodorico e Jesuína.
Após todos esses ocorridos, Teodorico soube que o odiado Padre Negrão, além de ter ficado com boa parte da fortuna da Titi, ainda ficara com Adélia, que o havia traído, primeiramente, com Adelino. Ao saber de mais essa “perda”, Raposão se arrepende pela ausência de ousadia para assegurar descaradamente que a camisola de Mary, na verdade, era a camisinha de Maria Madalena:
Sim! Quando em vez de uma coroa de martírio aparecera, sobre o altar da Titi, uma camisa de pecado – eu deveria ter gritado, com segurança: “Eis aí a relíquia! Quis fazer a surpresa... Não é a coroa de espinhos. É melhor! É a camisa de Santa Maria Madalena!... Deu-ma ela no deserto...”
E logo o provava com esse papel, escrito em letra perfeita: Ao meu portuguesinho valente, pelo muito
que
gozamos...
Era essa a carta em que a santa me ofertava a sua camisa. Lá brilhavam as suas
iniciais – M. M.! Lá destacava essa clara, evidente confissão – “o muito que gozamos”; o muito
que eu
gozara em mandar à santa as minhas orações para o céu,
o muito que a santa gozara no céu em
receber as
minhas orações!
E quem o duvidaria? Não mostram os santos missionários de Braga, nos seus sermões, bilhetes remetidos do céu pela Virgem Maria, sem selo? E não garante a Nação a divina autenticidade dessas missivas, que têm nas dobras a fragrância do paraíso? Os dous sacerdotes, Negrão e Pinheiro, cônscios do seu dever, e na sua natural sofreguidão de procurar esteios para a fé oscilante – aclamariam logo na camisa, na carta e nas iniciais, um miraculoso triunfo da Igreja! A tia Patrocínio cairia sobre o meu peito, chamando-me “seu filho e seu herdeiro”. E eis-me rico! Eis-me beatificado! O meu retrato seria pendurado na sacristia da Sé. O Papa enviar-me-ia uma bênção apostólica, pelos fios do telégrafo.
[...]
E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me faltou esse descarado heroísmo de afirmar, que, batendo na terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao céu – cria, através da universal ilusão, ciências e religiões.
Aqui aparece o Eça combativo e crítico severo do fanatismo religioso. Portanto, como bem atesta Pedro Coelho, estudioso de Eça:
Esse é o retrato preliminar que Eça faz da sociedade portuguesa daquele ano de 1887, quando o romance foi publicado. Uma sociedade onde a religião, leia-se o catolicismo, tinha uma presença forte numa boa parte do povo português, no contraponto de posturas hipócritas que essas relações alimentam. Raposão, por assim dizer, encarna a hipocrisia e o oportunismo que os charlatães da fé se utilizam nos dias de hoje para enriquecer, e sua madrinha, a ingenuidade daqueles que têm na religião a sua tábua de salvação, desde uma unha encravada até a garantia de leito do reino de deus. Entre os dois, o charlatão e o crente – a onisciente e onipresente igreja. (COELHO, 2012.)
Muito interessante é a escolha do nome do protagonista. Atente para as considerações de Lopes Couto:
Etimologicamente, Teodoro significa ‘dádiva de Deus’. Mas é possível entrever um trocadilho irônico. ‘Deus de ouro’ (Teo = Deus; doro = d’ouro = de ouro). Percebemos aí as duas instâncias que determinarão sua existência: a religiosidade e o interesse financeiro (lembrando sempre que uma pertence ao nível da aparência e a outra, à essência de sua personalidade). (COUTO, 2007)
Apesar do sobrenome ser Raposo, que se aproxima de Raposa, o protagonista não é nem um pouco astuto, esperto ou ágil como esse animal. Ele se comporta como um homem bobo e dominado. Em Lisboa, é dominado pela tia e também pela amante, que, inclusive, engana-o. No Egito, Raposo também será enganado pela amante Mary.
Teodorico é um menino órfão, criado pela tia rica, de quem ele cobiçava a riqueza –
a qual
esperava alcançar através da falsa beatice. Ele é um verdadeiro retrato da burguesia lisboeta com suas
frustrações e seus anseios materialistas; um típico burguês do século XIX em Portugal. Segundo Ana Teresa
Peixinho,
Teodorico Raposo é uma personagem que, cumulativamente, exerce funções de narrador autodiegético,
contando,
em processo de narração ulterior, a sua vida até ao momento presente em que é comendador, casado e chefe
de
família, proprietário da Quinta do Mosteiro, perto de Viana do Castelo, como é explicitado no prólogo do
romance subscrito pelo próprio. Este texto preambular é relevante para a compreensão, quer da narrativa
que
se segue, quer da personagem principal, de que aqui se instaura simultaneamente como o centro da
história e
como o protagonista do discurso: assume-se como alguém que vai escrever as suas memórias, “com
sobriedade e
sinceridade”, submetendo-as
ao duplo foco da história e da fantasia (REIS, 1999, p. 116-118).
“[...]
tão francamente como eu o revelo aos meus concidadãos nestas páginas de repouso e de férias, onde a
realidade sempre vive, ora embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da História, ora mais livre e
saltando sob a carapaça vistosa da Farsa!” (Queirós, 1997, p. 12), promete o narrador no final do
prólogo,
encetando um inequívoco diálogo intertextual com a epígrafe que o autor escolhera para o romance: “Sobre
a
nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia”.
Personagem dúplice em essência, Teodorico representa a “crise ética do sujeito, irredutível a uma linha de convicções e comportamentos coerentes”, o que, como é sabido, teve grandes repercussões na obra derradeira de Eça de Queirós (REIS, 1999, p. 123). Contudo, os sentidos para os quais aponta a construção do seu caráter são afetados por uma intemporalidade que pode explicar a recorrente revisitação à obra A Relíquia por dramaturgos, encenadores e argumentistas. Raposo é uma construção quase caricatural de um tipo humano que transcende as idiossincrasias sociais de época. Vive na duplicidade, em função de um projeto ambicioso e egocêntrico; é totalmente desprovido de valores e nem a religião, nem a consciência moral corrigem nele o oportunismo, a manha e a tendência quase compulsiva para a mentira. Embora seja uma construção fortemente negativa, como muitas outras personagens queirosianas, aparece temperada com um revestimento risível que suscita no leitor, o de então e o de hoje, o mesmo juízo ambíguo entre a complacência e a reprovação. (PEIXINHO, s.d.)
Personagem bastante caricata da obra. Representa a crendice cega e bastante radical do Portugal da segunda metade do século XIX.
As estudiosas Jamille Rabelo de Freitas e Núbia Enedina Santos Souza (2011) apontam a impiedosa e rancorosa Titi como representante do fanatismo religioso. Como exemplo disso, é visto que ela considera pecado até a criação do homem e da mulher. Sua profunda devoção faz com que ela odeie qualquer forma de prazer, sobretudo relacionada ao sexo. No enredo, em determinado momento, ela até remexe os baús das criadas à procura de algum elemento referente a homem. Além disso, ela expulsa seu sobrinho de casa, após identificar do que que se trata a “relíquia” que recebera. Ao final da narrativa, ela morre de uma “congestão dos pulmões”. Sua herança é dividida entre os padres e beatas que viviam próximos a ela. Para Teodorico, ficou apenas um maldito óculos.
– Que se aguente... É o que sucede a quem não tem temor de Deus e se mete com bêbadas... Não tivesse
comido
tudo em relaxações...
Cá para mim, homem perdido com saias, homem que anda atrás de saias,
acabou...
Não tem o perdão de Deus, nem tem o meu! Que padeça, que padeça, que também Nosso Senhor Jesus Cristo
padeceu!
E não lhe bastava reprovar o amor como cousa profana; a senhora D. Patrocínio das Neves fazia uma
carantonha,
e varria-o como cousa suja. Um moço grave, amando seriamente, era para ela “uma porcaria”! Quando
sabia de uma senhora que tivera um filho, cuspia para o lado, rosnava – “que nojo!”. E quase achava a
natureza obscena por ter criado dous sexos.
Eça critica a beatice doentia de Titi ao mesmo tempo em que se aproveita da hipocrisia e do cinismo de Raposão para atacar o abuso da boa-fé e da credulidade: “Corrigi então a minha devoção e tornei-a perfeita. Pensando que o bacalhau das sextas-feiras não fosse uma suficiente mortificação, nesses dias, diante da Titi, bebia asceticamente um copo de água e trincava uma côdea de pão (...)”.
Acordando do seu langor, trêmula e pálida, mas com a gravidade de um pontífice, a Titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, colocou-o sobre o altar; devotamente desatou o nó do nastro vermelho; depois, com o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo...”
Assim, o autor traça um paralelo entre o sagrado – representado pela beatice e pela fé cega de D. Patrocínio
–
e o profano – figurado pela hipocrisia e ambição desmedida, retrato das consequências de uma
sociedade materialista
que, ao mascarar seus valores, dissimula as ações e delineia uma atmosfera
hipócrita.
Por fim, Titi será, sim, adjetivada ao longo da obra: a “severa Titi”, “a fria”, “a sovina castradora”, “pudica, que não morre nem abre os cordões à bolsa verde”. Ela será o invólucro cobiçado e permissório de todas as ambições de Teodorico Raposo.
Foi Rinchão que apresentou Adélia ao amigo Teodorico. Eles terão um caso amoroso, mas ela o abandonará para ficar com Adelino. É uma mulher preocupada com posses, que, ao final da narrativa, ficará com o inescrupuloso, e agora rico, Padre Negrão.
Personagem que alertou Teodorico para a possibilidade de sua tia deixar toda a fortuna para Jesus Cristo, através de irmandades e de religiosos amigos. O doutor fora juiz em Mangualde, mas agora passava o tempo lendo periódicos e algumas vezes jantava na casa de Titi. Gostava das hipérboles, pois, quando jovem, escrevera duas tragédias.
Amigo, procurador e companheiro de numerosos jantares na casa da beata. Herdou dela algumas posses. Representa uma igreja que se fecha aos problemas sociais e vive dentro das casas dos representantes da abastada classe social de Portugal.
Trata-se de outro herdeiro de Dona Patrocínio. Hipocondríaco, ficava o tempo todo a se olhar no espelho, lamentando possíveis moléstias. Personagem bastante caricato.
É a amante de Teodorico em Alexandria. Foi ela que deu a Raposo a fatídica camisola que o levou à deserdação. O presente era uma recordação dos momentos prazerosos que os dois viveram. No retorno a Portugal, Raposão doou a uma mendiga um embrulho, pensando tratar-se da camisola, descobrindo tardiamente que, na verdade, era a “verdadeira relíquia”. A ironia de Eça aparece mais uma vez, pois o nome dessa amante de Raposo refere-se às histórias bíblicas, sobretudo à personagem Maria Madalena, “a quem Teodorico no final se lamenta de não ter atribuído a propriedade da camisola que o desmascarou”, como bem observou Fernando Marcílio Lopes Couto (QUEIRÓS, 2007).
Personagem caricata, o doutor Topsius representa o “saber ilustrado”, pois, na verdade, não possui profundidade alguma em seus estudos. Ele sempre usa citações, mas tem um saber superficial acerca do Oriente. Alto, nariz agudo e pensativo, parece uma cegonha. Será ele que atestará a veracidade da relíquia que Raposo entregará para a tia. É o grande companheiro de viagem do protagonista pelo Oriente. Por meio dessa personagem, Eça de Queirós desenvolve a ironia diante do exagerado naturalismo cientificista da segunda metade do século XIX, já que o alemão era arqueólogo, doutor pela Universidade de Bonn e sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas.
Esse personagem, apesar de só ter aparecido no final da narrativa, terá um papel crucial na derrocada de
Raposo. O dissimulado e interesseiro Padre Negrão cortejará a beata na ausência do sobrinho e construirá
para ela a imagem de um verdadeiro servo de Deus. Por meio dele, Eça destilará sua crítica ao clero
português, seguindo uma tendência dos romances anticlericais da segunda fase de sua produção. Padre Negrão
frequentava a casa de Dona Patrocínio, pois viera para substituir o Padre Casimiro, seu tio, que adoecera.
Negrão vai herdar a quinta do Mosteiro – perto de Viana de Castelo –, as inscrições do Crédito Público, a
mobília da casa de Santana e o Cristo de ouro.
Também foi herdeiro do tio, Casimiro, e preparava-se
para herdar a fortuna do Padre Pinheiro, a quem vivia empanturrando “com tremendos jantares para lhe
apressar o fim”. Além de herdar a riqueza da tia de Raposo, toma-lhe também a amante Adélia, que já havia
traído o azarado e “sem-nada” Teodorico.
A atuação do diabo em um trecho do segundo capítulo de A Relíquia comprova que, apesar de ser uma mera personagem secundária, constitui-se um importante ponto de apoio para as críticas veiculadas por Eça de Queirós à Igreja e à religiosidade institucional. Satanás aparece em outras obras do escritor.
Há outras personagens na obra: Vivência, criada de Titi; Justino, o tabelião; Silvério, por alcunha o Rinchão, amigo que apresentou Adélia a Teodorico; Alpedrinha, que aparece na narrativa como uma paródia dos grandes e heroicos navegantes portugueses, além de ter sido quem apresentou Mary a Raposão; Tote, o guia na viagem pela Terra Santa; Crispim, antigo amigo, posteriormente patrão e cunhado de Teodoro; e D. Jesuína, irmã solteira de Crispim e futura esposa de Teodoro.
Toda a ação da obra centra-se em torno de Teodorico Raposo, protagonista e narrador. Trata-se, portanto, de uma narrativa em primeira pessoa, em que Teodorico assume-se como alguém que vai escrever as suas memórias, com sobriedade e franqueza, submetendo-se ao duplo foco da história e da fantasia. De acordo com Ana Teresa Peixinho,
[...] no discurso pessoal instaurado pelo narrador, são matizadas as marcas características do discurso autobiográfico e memorialista, geralmente representativo de quem lança sobre o passado um olhar distanciado. Recorrendo raramente à anacronias significativas, o narrador mantém o suspense narrativo e assume o discurso, não como voz ulterior que rememora o passado de um ângulo mais maduro e experimentado, mas como voz de Teodorico-personagem, deixando-o conduzir o leitor pelas aventuras e desventuras da sua juventude. (PEIXINHO, s.d.)
Ainda acerca do narrador, Saraiva e Lopes afirmam:
Eça consegue imaginar uma autobiografia de certa personagem que é, ao cabo, muito reveladora para além do nível de consciência do próprio narrador, e, de fato, induz-nos a encará-lo, ora como um vulgar espertalhão, afinal logrado, ora como testemunha fiel do nascimento histórico, dezenove séculos atrás, da sua própria religião - que aliás (e sem êxito) tentará instrumentar em seu proveito. (SARAIVA; LOPES, 2005, p. 864).
Outros estudiosos chegam a chamar a personagem-narrador de inverossímil, pois jamais um raso e limitado Raposo teria respaldo e conhecimento suficiente para narrar com detalhes a crucificação de Jesus de maneira tão perfeita. Mas, discussões de lado, é por meio do narrador que o escritor português faz duras críticas, como já foi mencionado, às estruturas portuguesas, carcomidas pelo conservadorismo e pela tradição paralisante da Igreja Católica.
A linguagem utilizada por Eça, na voz do narrador Raposão, é extremamente irônica, pois através da narrativa o escritor pontifica o cinismo dos exploradores da fé, dos verdadeiros “raposões” da vida. Por tratar-se de uma personagem-narrador dúplice, observa-se que, quando dentro de casa, ao lado da odiada tia, o discurso do narrador é extremamente bajulador e concordante com tudo o que a beata defende. Mas, quando longe da opressora, a voz narrativa é mais “leve” e bastante crítica em relação às carolices da velha detestada pelo narrador.
O discurso intertextual está bastante presente ao longo da narrativa, sobretudo no que tange ao catolicismo, pois o narrador faz uma grande paródia da religiosidade cristã e da crítica social de sua época. O estudioso Geraldo Chacon (1999) afirma também que Eça
[...] abandonou o uso de estrangeirismos, tais como chic, toilette, shake-hands, como fazia em O primo Basílio. Outra curiosidade é que neste romance, em especial, por ser uma história de padres, já não proliferam tanto os termos e as expressões em latim, como em O crime do padre Amaro. (CHACON, 1999)
Logo no início do prefácio, o narrador-personagem situa o leitor em sua linha do tempo, mostrando que fará uma “viagem” ao passado (flashback) e contará toda a sua “peregrinação” até o restabelecimento na quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso). Duas datas são mencionadas de maneira explícita: o ano de 1853, quando o pai de Teodorico estabeleceu amizade com D. Gaspar de Lorena, bispo de Corazim e quem lhe concedera um bom emprego; e o ano de 1875, quando Raposão fez a famosa viagem à Terra Santa.
Predominam, na obra, Portugal (Lisboa, Coimbra e arredores) e a Terra Santa, mas outros espaços também merecem ser citados, como Alexandria, no Egito, o Cairo, o Nilo, as Esfinges e, principalmente, as igrejas, que foram preteridas por Raposão para ele ficar ao lado de sua amante inglesa, Mary. Na verdade, Raposão pensava quase o tempo inteiro em “relaxações” e prazeres mundanos. Como já foi mencionado anteriormente, o narrador se excede nas descrições dos espaços “visitados”.
Apesar de ser uma obra do Realismo, A Relíquia expõe a dúvida sobre toda e qualquer verdade estabelecida e todo e qualquer meio para obtê-la. Assim, como atesta o estudioso Fernando Marcílio Lopes Couto (QUEIRÓS, 2007), a crítica do escritor atinge tanto a religião quanto a Arte e a Ciência.
Couto também tece comentários acerca das palavras que servem de pórtico para a obra: “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”. O crítico afirma que tais palavras
expressam a opção de fazer referência à verdade sempre tendo em mente sua realização artística. Ou seja, para falar sobre a verdade, não se pode esquecer o lirismo. O problema que essas palavras colocam é essencial na obra: fantasia e verdade estão juntas, e às vezes é muito difícil distingui-las. Isso significa que é quase impossível saber a verdade sobre o mundo, porque essa verdade é sempre relativa. (QUEIRÓS, 2007)
A viagem de Teodorico pelo Oriente, sobretudo, tem uma significação espiritual “(de autodescoberta) e social (de representação da decadência moral do povo português).”
O riso, a paródia e a ironia são muito valorizados nas obras de Eça de Queirós. Em A Relíquia, são usados para polemizar o real (e Eça é um escritor realista!) por meio de devaneios e ilusões vivenciadas pelas personagens.
“O tratamento irônico que Eça confere aos assuntos sagrados marca a relação de A Relíquia com o Naturalismo.” Os aspectos bestiais e impulsivos de Teodorico são características também do Naturalismo. O cientificismo naturalista, por sua vez, foi bastante ironizado.
A obra apresenta um forte pessimismo, como acontece em tantas outras obras de Eça de Queirós.
Um dos principais objetivos do escritor português, em sua segunda fase, foi criticar duramente a sociedade de Lisboa, como fez também em obras como O primo Basílio e O crime do padre Amaro.
O autor enfoca temas universais: essência versus aparência e o jogo de interesses. Por fim, Eça denuncia, mais uma vez, o clero lusitano, mostrando a hipocrisia e a dissimulação de alguns religiosos.