Por ZÉ CARLOS BASTOS

Ilustrações: Rubens Lima

Lettering: Camila Meireles

EÇA DE QUEIRÓS

Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845 em Póvoa do Varzim, fruto dos amores secretos de Carolina Augusta Pereira de Eça e de José Maria Teixeira Queirós. Faleceu no ano 1900, com apenas 55 anos de idade. A jovem Carolina deu à luz secretamente, em casa de Francisco Augusto Soromenho, empregado da fiscalização do pescado da Póvoa. A carta que ela recebeu do pai da criança, bastante curta, intriga os estudiosos da biografia do escritor português.

Disponível em: <http://www.citi.pt/cultura/literatura/romance/eca_queiroz/carta_pai.html>.
Acesso em: 22 maio 2018.

Fruto de uma relação não legítima, foi criado por uma modesta família de Vila do Conde, cidade vizinha daquela onde nasceu. Recebia constantes visitas de seus pais, que só depois de quatro anos,
em 1989, legalizaram o nascimento do filho, quando então se casaram.

Desde o nascimento, as polêmicas sempre estiveram presentes na vida de Eça de Queirós. Ele
viveu verdadeiras revoluções íntimas e as expôs como ficção em muitas das suas obras. A estudiosa Anya Moura (2012) afirma que a “revolução íntima vem do paradoxo de viver em uma época em que o Romantismo impregnava as almas, e de trocar sentimentos e emoções por uma visão cientificista, adotando uma atitude de analista social”.

Como jovem universitário, Eça participou, em 1871, das Conferências do Casino Lisbonense, um conjunto de palestras realizadas pelo grupo do Cenáculo, reunião de escritores e intelectuais da Geração de 1970, a qual era formada pelos iniciadores do Realismo / Naturalismo. Os principais autores dessa geração são: Antero de Quental, Eça de Queirós, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e Guerra Junqueiro. Observe as considerações do professor Jayme Barros (1999)
a respeito dessas conferências:

Como os realistas franceses, a Geração de 1970 queria uma “arte viva”, capaz de servir como arma de combate, voltada para a reforma do corpo social e com a educação como uma de suas preocupações. Entretanto, logo o governo português interveio e proibiu a continuação das conferências, alegando que elas atentavam contra a religião e as leis do país.

Com os romances O crime do Padre Amaro (1875) e O primo Basílio (1878), Eça consolida a ficção realista / naturalista em Portugal. O Eça dessa época é o mais conhecido e estudado: um escritor incisivo, sarcástico e bastante irônico para com as estruturas sociais do seu tempo. Mas, como bem atesta o estudioso Maurício R. Silva,

A Relíquia foi publicado em 1887, causando uma série de estranhamentos para os leitores que, muitas vezes, achavam a narrativa “moderna demais” para o seu tempo.

A evolução literária de Eça de Queirós é dividida em três fases:

Primeira fase (1866 a 1875): iniciou sua carreira literária como autor de folhetins e posteriormente reuniu esses textos na obra Prosas bárbaras, em 1866, dando início à sua primeira fase literária, que terminaria em 1875, com a publicação de O crime de Padre Amaro. Nessa fase, revela-se influenciado pelo Romantismo,
e seus textos foram marcados pela indecisão e humanização da natureza.

Segunda fase (1878 a 1888): Eça se torna adepto das teorias do Realismo. Esta fase, diz Saraiva e Lopes (1996), “esboça um panorama de crítica social cultural que poderia constituir um programa de inquérito à vida portuguesa” (p. 900). Além das reflexões sobre os maus hábitos da sociedade portuguesa do século XIX, Eça destina especial atenção ao clero, atribuindo-lhe um comportamento hipócrita e manipulador. É nesta fase que ele escreve suas principais obras: O Primo Basílio (1878), O mandarim (1880), A Relíquia (1887) e Os maias (1888).

Terceira fase (1889-1900): ao contrário do pessimismo e das duras críticas estabelecidas no período anterior,
na terceira e última fase, percebemos uma tendência ao otimismo, valorizando o espírito e a alma, além da vida simples do interior em oposição à agitada vida urbana. Dessa fase, destacam-se como obras principais: Correspondência de Fradique Mendes (1889-90), Dicionário de milagres (1900), A Ilustre Casa de Ramires (1900)
e A Cidade e as Serras (1901, obra póstuma).

O REALISMO EM PORTUGAL – MOMENTO HISTÓRICO E CULTURAL

O Realismo em Portugal foi uma tentativa de tirar a conservadora e atrasada nação portuguesa de uma mentalidade presa aos princípios românticos e cristãos. Os artistas queriam inserir Portugal no “espírito moderno” que sacudia outras nações europeias.

O Realismo teve início em Portugal com a Questão Coimbrã, episódio ocorrido nos anos 1865 e 1866 que pode ser apontado como um marco do fim do Romantismo. Questão Coimbrã é o nome dado às polêmicas estabelecidas entre os intelectuais da época, que discordavam sobre a produção literária portuguesa e, de forma mais ampla, sobre a situação de seu país ao final daquele século. A exposição das discussões e queixas dos intelectuais – a maioria formada na Universidade de Coimbra, o que justifica o nome do movimento – se dava por meio de poemas, artigos e cartas publicadas nos periódicos da época.

Consolidado o liberalismo português, o país conheceu, a partir de 1850, um período de estabilidade política, de progresso material e de intercâmbio com o resto da Europa. Já em 1964, Coimbra, um importante centro cultural e universitário da época, ligava-se diretamente à comunidade europeia por meio da estrada de ferro. No entanto, apesar dessas novidades no cenário político-cultural, a literatura portuguesa ainda se encontrava impregnada de velhas ideias românticas e árcades.

O professor Dr. Ulisses Infante (2003) define como características do Realismo / Naturalismo:

I. precisão descritiva;

II. personagens meticulosamente construídos;

III. valorização dos personagens em detrimento do enredo;

IV. análise do comportamento do homem na sociedade;

V. contaminação da literatura pela filosofia e ciência:

o positivismo de Augusto Comte;

o determinismo positivista de Hippolyte Taine;

as ideias socialistas de Karl Marx e Friedrich Engels;

o materialismo.

VI. romance realista = romance documental; romance naturalista = romance experimental;

VII. terminologia de sabor científico e comparações depreciativas;

VIII. denúncia das mazelas sociais.

As professoras Maria Luiza Abaurre e Marcela Pontara (2015) apontam outras características:

I. mudança da face de Portugal pela Revolução Industrial;

II. paradoxo capitalista: desenvolvimento e miséria;

III. sociedade no centro da obra literária;

IV. racionalismo e objetividade;

V. contemporaneidade;

VI. materialismo;

VII. anatomia do caráter;

VIII. interesse coletivo;

XIX. linguagem: a força das descrições cruéis.

Agora, observe como o próprio Eça de Queirós sintetiza as características do Realismo:

I. o Realismo deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea. Deste princípio, que é basilar, que é a primeira condição do Realismo, está longe a nossa literatura (a oitocentista!) A nossa arte é de todos os tempos, menos do nosso;

II. o Realismo deve proceder pela experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos caracteres;

III. o Realismo deve ter o ideal moderno que rege as sociedades – isto é: a justiça e a verdade. (QUEIRÓS apud MATOS, 2016).

A RELÍQUIA

Quanto à obra A Relíquia, na ocasião de sua publicação, o já muito badalado Eça de Queirós a submeteu a um concurso literário da Academia Real das Ciências de Lisboa (para ele, berço da “literatura tradicional e conservadora”). Essa obra não teve êxito, muito pelo contrário; o estudioso e crítico Pinheiro Chagas, que era relator do júri, teceu críticas ácidas, desqualificando-a por completo.

Tese x Fantasia

O estudioso Álvaro Lins diz que A Relíquia não “pertence à primeira parte nem a última parte da produção de Eça.
Mas ela realiza, no destino do escritor, a sua primeira evasão do Naturalismo para o domínio da fantasia, que sempre o atraiu” (LINS, 1959, p. 84). Apesar de estar inserida na parte “realista” do crítico (para a maioria dos estudiosos), Antônio José Saraiva (1992) a coloca em um subgrupo em que o escritor expandiria suas ideias baseando-se em dois princípios:
a tese e a fantasia.

Pontos de vista

São muitas as discussões em torno dessa obra espetacular do irreverente Eça de Queirós. Em uma outra direção, João Gaspar Simões afirma que A Relíquia seria uma obra malograda, porém capaz de demonstrar maior maturidade do escritor: ”Para sentir-se em liberdade, bastava-lhe um tema em que não fosse preciso observar, analisar ou imaginar dentro da fronteira do real.” (SIMÕES, 1973, p. 476). Por fim, observemos o que João Medina diz sobre o conteúdo da tão debatida obra: o livro apresenta “matéria suficiente para escandalizar os espíritos religiosos e bem pensantes da sociedade burguesa do seu tempo, no fundo tão conformista e devota”. (MEDINA, 2000, p. 98) Medina ainda assegura que

Ironias e críticas

Após uma série de considerações, é possível perceber que Eça de Queirós, em A Relíquia, faz irônicas e diretas críticas ao típico burguês (e às suas formas de ascensão social) de Portugal da segunda metade do século XIX, assim como aos costumes hipócritas nos quais estava imersa a cultura portuguesa, que atribuía às práticas religiosas mais um dos diversos meios para os indivíduos serem integrados às benesses do capital e do luxo. O autor, não se pode deixar de registrar, também ironiza bastante o cientificismo naturalista da época.

Humor e caricatura

Beatriz Berrini, investigadora brasileira de literatura e especialista na obra de Eça de Queirós, assegura que em
A Relíquia, Eça “está mais uma vez exercendo seu poder de observador da realidade na qual está inserido e, como não podia deixar de ser, registra suas críticas explicitamente a partir da narrativa de Teodorico”. Eça não poupa críticas à sociedade lusitana da segunda metade do século XIX. De modo metonímico, o escritor destila a sua ironia ferina ao partir de uma parte (Teodorico) para o todo (sociedade portuguesa). Assim, segundo Berrini,

Gênero

A discussão em torno do gênero da obra A Relíquia é antiga. Observemos o que afirma Ana Paula Foloni Gamba (2005): “O autor procurou ser claro e objetivo desde o início, lançando a ideia da presença do elemento fantasista já na célebre epígrafe “Sobre a nudez forte da Verdade – o manto ‘diáfano’ da Fantasia”,” que abre seu texto.

Evasão e fuga

A ideia de “evasão” e “fuga” é apenas aparente na obra de Eça de Queirós, pois ele nunca abandonou a análise do comportamento humano, a crítica social e a sátira de costumes. O que ele fez, na verdade, foi “camuflar” a impertinente tirania da realidade, tornando o estudo desta menos “áspero”. Para isso, adotou um gênero que se baseia justamente na mescla da realidade e da fantasia, da comicidade e da seriedade filosófica.

Maurício R. Silva (1996), estudioso das obras de Eça, portanto, traz outras frentes, ao afirmar que a obra é

Síntese do enredo*

A obra é dividida em cinco capítulos, e seu prefácio é de suma importância para o entendimento do livro. Assim começa a “peregrinação” de Teodorico Raposo, o debochado e pícaro Raposão para os amigos de farra:

Em A Relíquia, Eça apresenta um tom sarcástico e expressivo de crítica social contra a devoção religiosa fingida, relacionada aos valores católicos de seu tempo, e a hipocrisia. De modo geral, o enredo dessa obra pode ser dividido em três partes, sendo que a principal é desenvolvida com base nas lembranças de viagens; já as outras duas delineiam a vivência da personagem D. Maria Patrocínio das Neves, que é exageradamente beata; além de traçar, também, um apanhado psicológico do sobrinho de D. Patrocínio, Teodorico Raposo, homem cujas tendências são liberais e libertinas, representando a hipocrisia.

Em relação à viagem que fizera e já anunciando de forma pincelada o que aconteceu (o narrador está distante dos fatos narrados, mas contará de maneira que parece que os fatos vão-se desenrolando à medida que transcorre a narrativa), Teodorico dirá:

Com uma excessiva descrição (que muitas vezes cansa o leitor desavisado), o narrador-personagem discorre sobre sua peregrinação “pelas terras santas”, mas sem deixar de lado, jamais, a sua ironia fina e a sua crítica social.

Capítulo I

A narrativa se passa na segunda metade do século XIX, em Lisboa, e tem como protagonista e narrador Teodorico Raposo, o Raposão, órfão de pai e mãe. O primeiro capítulo da obra se inicia assim:

Teodorico Raposo será criado por uma tia beata e bastante rica! Quando ele chegou à casa da carola, foi logo advertido:

Teodorico foi educado de maneira “espartana” em relação aos preceitos católicos (observe que já aparece de forma clara a crítica de Eça ao fanatismo lusitano e à crença cega nos representantes da Igreja). Titi impôs uma formação católica ao garoto, acreditando doentia e cegamente nos valores cristãos. Quando rapaz, Teodorico não chegou a ser um ateu convicto, mas debochou de muitos ritos do catolicismo praticados por sua tia. Em verdade, Eça caçoa da Portugal piegas dos oitocentos.

Depois de um período estudando nos Isidoros e passando um domingo por mês com sua tia, Teodorico foi enviado para Coimbra, onde encerrou seus estudos. Lá viveu, de fato, uma vida desregrada e libertina, apesar das tantas recomendações da tia Patrocínio.

Após essa longa época de estudos em Coimbra (e de farra, “relaxações” e bebedeiras), Raposo retornou a Lisboa. Apesar de advogado formado, não exerceria a advocacia. Na verdade, Teodorico se empenhou na missão de se tornar o único herdeiro de Titi (para ele, uma mulher insuportável) e, para isso, assumiu compromissos com a Igreja e com a tia beata, que sempre recebeu alguns amigos nos jantares em casa, dentre eles os Padres Casimiro e Pinheiro, além do Doutor Margaride.

Teodorico teve uma vida dupla e dissimulada, pois na rua era o mulherengo boêmio, mas dentro da casa da tia foi quase “um santo”.

Certo dia, Teodorico encontrou um velho amigo de farra, o Rinchão, que o convidou a ir à casa de uma amiga sua:

Adélia passou a ser uma constante tentação para Teodorico, e em quase todas as noites o jovem corria para os braços da rapariga. Uma noite, porém, andando pela antiga Lisboa, Raposo encontrou o Doutor Margaride, que disse que o jovem tem um “inimigo” no que diz respeito ao recebimento da herança da tia. Teodorico ficou nervoso e, ao escutar que Jesus era o seu rival, decidiu lutar contra uma terrível possibilidade: a de sua tia deixar tudo para as “irmandades de sua simpatia e a padres da sua devoção”.

Passado o susto inicial, Teodorico se animou com o consolo de Margaride: “Você vem a herdar tudo, se D. Patrocínio, sua tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como deixá-la à Santa Madre Igreja”. A partir de então, ele exagerava nas encenações para impressionar a fanática senhora. Esta parte da narrativa chega a ser caricata, pois o jovem se lança no oratório para se mostrar à tia, porém, na verdade, tudo não passava de teatralização, pois ele só pensava nos amores e nas riquezas da herança que a tia deixaria para ele.

Apesar de tantas amostras de fé e de penitências, o jovem se revoltava com a resistência da velha, pois mesmo bastante doente, sua saúde resistia como uma pedra! Diante da demora pela morte da tia Patrocínio, Adélia troca Raposo por Adelino, deixando-o bem enfurecido. Agora sem as “relaxações” com Adélia e sem a possibilidade de concretizar o sonho de conhecer Paris, a “cidade da luz”, Teodoro Raposo partirá para a Terra Santa, por sugestão do Padre Casimiro e a “pedido” da beata Titi: “[...] estou decidida a que alguém que me pertença, e que seja do meu sangue, vá fazer por minha intenção uma peregrinação à Terra Santa”. Em princípio, a viagem pareceu um estorvo para o boêmio Raposo, mas logo depois ele começou a pensar nas farras, bebedeiras e mulheres que lá encontraria. E, então, partiu numa manhã de domingo, 6 de setembro e dia de Santa Libânia, prometendo à tia “trazer uma tremenda relíquia!”

Capítulo II

A “peregrinação” de Teodorico Raposo ao lado do “ilustre Topsius” – doutor e sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas, homem de saber enciclopédico e caricatura dos “cientistas” do século XIX – começou pela Alexandria.

Em Alexandria, o galanteador Raposão se envolve com Mary, uma luveira que ele chamará de Maricoquinhas. Esta “caliente senhorita” deixará de lembrança para Raposão uma camisola com os dizeres: “Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozamos!” Esta singela lembrança será empacotada em papel pardo pelo companheiro Alpedrinha e entregue a Teodorico, que a levará na sequência da viagem.

Certa noite, Teodorico tem um sonho com a sua amante de Portugal, Adélia, e com Mary, a amante da “relíquia”, quando, então, o Diabo aparece. Esse personagem temido e misterioso está presente também em outras obras de Eça. O estudioso Antônio Augusto Nery (2005) afirma:

Lúcifer, apesar de aparentemente ser uma mera personagem secundária, constitui-se um importante ponto de apoio para as críticas veiculadas por Eça de Queirós à Igreja e à religiosidade institucional. Satanás desempenha um papel fundamental na produção do escritor, especialmente quando ele procura fazer menções a conceitos do individualismo moderno e criticar a instituição religiosa oficial de Portugal: a Igreja Católica.

Ainda no caminho à Terra Santa, o português recordou-se da sua “insuportável tia” e do pedido que ela fizera: “traze-me desses santos lugares uma santa relíquia, uma relíquia milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas aflições e que cure as minhas doenças”.

E assim, um dia, vagando nas proximidades do rio Jordão, Teodorico encontrou a tão preciosa relíquia, aliás, a mais importante de todas: a coroa de espinhos que foi legitimada por Topsius. O diálogo que os dois travaram vale a pena ser relido:

O alemão percebeu que Raposo estava preocupado com a relíquia, pois se ela realizasse, de fato, algum milagre, estendendo ainda mais a vida de Titi, seria a ruína de Teodorico. Por isso, o doutor tratou logo de dizer que a coroa de espinhos foi feita de uma outra planta, e não da “verdadeira”. Após uma longa conversa entre os companheiros, Pote, o guia da viagem, entrelaçou o galho, dando-lhe a forma exata de uma coroa. E como ainda necessitavam retornar à Jerusalém, Pote embrulhou a cora “com uma folha de papel pardo e um nastro escarlate”. Observe, portanto, a semelhança entre os embrulhos da camisola de Mary e o da coroa de espinhos: ambos estavam em pacotes de papéis pardos.

Capítulo III

É nesta parte que o detalhismo das descrições chega ao ápice.

Eça capricha ao retratar a paisagem local, a ambientação cultural e a atmosfera que serviram de fundo para o drama cristão.

Os desbravadores serão “testemunhas vivas” da crucificação de Cristo. Observe a fala do estudioso Topsius:

Esta longa parte da narrativa é considerada obra-prima da literatura de Língua Portuguesa. Eça toca em um assunto sagrado para os cristãos: a Paixão de Cristo. Ele apresenta os “fatos” como se fossem uma realidade, e não uma representação onírica da crucificação do Messias. Ao final do capítulo, Topsius chama o sonhador Raposo:

Ao retornar do longo sonho, alegre com a “milagrosa relíquia” conquistada, Teodorico Raposo seguirá radiante e confiante à Lisboa, em busca da sua almejada herança. No entanto, algumas trapalhadas no trajeto trarão para ele grandes e trágicas consequências.

Capítulo IV

Teodorico e Tópsius seguiam em sua viagem de volta ao “Velho Mundo”, quando Raposo perguntou ao doutor sobre a relíquia que daria a tia:

As palavras do alemão merecem uma reflexão crítica dos leitores, pois trata-se da desconstrução de algo solidificado na história da Igreja Católica: a valorização de todo tipo de “relíquia”. Aqui, Eça destila, mais uma vez, sua crítica à religiosidade lusitana.

Enquanto isso, Teodorico Raposo, apesar de ainda muito longe de Lisboa, já se vira oferecendo à tia a bendita e salvadora relíquia, o presente que, de fato, garantiria a ele toda a herança de D. Patrocínio das Neves.

Capítulo V

Chegando a Lisboa, Raposo segue para a casa da tia, ansioso para lhe entregar a redentora relíquia. Por conta da viagem à Terra Santa, ele será tratado quase como um santo por todos que frequentavam a casa, exceto por Padre Negrão,
um oportunista e vigarista que ganhara terreno e o afeto (coisa difícil em Titi) da beata durante a ausência do sobrinho.
A cena da revelação da relíquia, que se deu no oratório, é hilária para os leitores e trágica para Teodorico:

Por algum descuido, que nem o leitor mais atento saberá ao certo, Raposo trocou os dois embrulhos, ou melhor, as duas relíquias. Deixou com uma mendiga, no retorno a Lisboa, a coroa de espinhos, trazendo para sua tia a camisola da amante com quem viveu momentos intensos de “relaxações”. O engano custou caro, e Teodorico foi vítima da indignação de Titi, a beata e demonizadora do sexo.

O sobrinho foi expulso de casa, levando apenas a mala com outras “relíquias” que trouxera da Terra Santa. Depois do fatídico incidente, passou a vendê-las na cidade, mas o negócio logo saturou por conta dos exageros na oferta, gerando uma queda brusca nas vendas e levando seu negócio à falência.

Enquanto Teodorico buscava meios para sobreviver, tomou conhecimento da morte da tia, que deixou-lhe apenas um óculos como herança. E como era de se esperar, a velha destinou absolutamente todos os seus bens para algumas irmandades e para os frequentadores dos jantares em sua casa. Até mesmo a quinta do Mosteiro foi doada como herança ao insuportável Padre Negrão, que foi o que mais bens recebeu, deixando Teodorico furioso.

Enquanto estava no hotel, diante da “herança” recebida da tia, Raposo, agora arrependido, teve uma visão fantástica (sonho!). Em um “sonho” (ou “viagem”), Teodorico ouviu “uma voz repousada e suave ‘do além’”, ou a voz de Jesus, que na verdade era a voz da sua própria consciência. A sua “consciência”, naquele instante, proclamava a “inutilidade da hipocrisia” como a lição que ele deveria aprender com aquele episódio.

No dia seguinte, casualmente, Teodorico encontrou seu antigo amigo Crispim. Depois de expor suas dificuldades financeiras, o amigo, “filho da firma Teles, Crispim & Cia”, ofereceu-lhe um emprego, ao que de pronto o homem deserdado aceitou. Com o passar do tempo, Teodorico vai mostrando ao patrão que se tornara um homem “melhor”. Um dia, convidado a um almoço seguido da missa na Ribeira, Teodorico conheceu D. Jesuína, irmã solteira do patrão; tinha trinta e dois anos e era zarolha. Ao ver Raposo envolvido com sua irmã, “com um riso de lealdade e estima”, Crispim pergunta se haveria amor verdadeiro à mana Jesuína. “Amor, amor, não... Mas acho-a um belo mulherão; gosto-lhe muito do dote; e havia de ser um bom marido.” Enfim, casam-se Teodorico e Jesuína.

Após todos esses ocorridos, Teodorico soube que o odiado Padre Negrão, além de ter ficado com boa parte da fortuna da Titi, ainda ficara com Adélia, que o havia traído, primeiramente, com Adelino. Ao saber de mais essa “perda”, Raposão se arrepende pela ausência de ousadia para assegurar descaradamente que a camisola de Mary, na verdade, era a camisinha de Maria Madalena:

Aqui aparece o Eça combativo e crítico severo do fanatismo religioso. Portanto, como bem atesta Pedro Coelho, estudioso de Eça:

Personagens

Teodorico Raposo

Muito interessante é a escolha do nome do protagonista. Atente para as considerações de Lopes Couto:

Apesar do sobrenome ser Raposo, que se aproxima de Raposa, o protagonista não é nem um pouco astuto, esperto ou ágil como esse animal. Ele se comporta como um homem bobo e dominado. Em Lisboa, é dominado pela tia e também pela amante, que, inclusive, engana-o. No Egito, Raposo também será enganado pela amante Mary.

Teodorico é um menino órfão, criado pela tia rica, de quem ele cobiçava a riqueza –
a qual esperava alcançar através da falsa beatice. Ele é um verdadeiro retrato da burguesia lisboeta com suas frustrações e seus anseios materialistas; um típico burguês do século XIX em Portugal. Segundo Ana Teresa Peixinho,

D. Patrocínio das Neves

Personagem bastante caricata da obra. Representa a crendice cega e bastante radical do Portugal da segunda metade do século XIX.

As estudiosas Jamille Rabelo de Freitas e Núbia Enedina Santos Souza (2011) apontam a impiedosa e rancorosa Titi como representante do fanatismo religioso. Como exemplo disso, é visto que ela considera pecado até a criação do homem e da mulher. Sua profunda devoção faz com que ela odeie qualquer forma de prazer, sobretudo relacionada ao sexo. No enredo, em determinado momento, ela até remexe os baús das criadas à procura de algum elemento referente a homem. Além disso, ela expulsa seu sobrinho de casa, após identificar do que que se trata a “relíquia” que recebera. Ao final da narrativa, ela morre de uma “congestão dos pulmões”. Sua herança é dividida entre os padres e beatas que viviam próximos a ela. Para Teodorico, ficou apenas um maldito óculos.

Eça critica a beatice doentia de Titi ao mesmo tempo em que se aproveita da hipocrisia e do cinismo de Raposão para atacar o abuso da boa-fé e da credulidade: “Corrigi então a minha devoção e tornei-a perfeita. Pensando que o bacalhau das sextas-feiras não fosse uma suficiente mortificação, nesses dias, diante da Titi, bebia asceticamente um copo de água e trincava uma côdea de pão (...)”.

Assim, o autor traça um paralelo entre o sagrado – representado pela beatice e pela fé cega de D. Patrocínio –
e o profano – figurado pela hipocrisia e ambição desmedida, retrato das consequências de uma sociedade materialista
que, ao mascarar seus valores, dissimula as ações e delineia uma atmosfera hipócrita.

Por fim, Titi será, sim, adjetivada ao longo da obra: a “severa Titi”, “a fria”, “a sovina castradora”, “pudica, que não morre nem abre os cordões à bolsa verde”. Ela será o invólucro cobiçado e permissório de todas as ambições de Teodorico Raposo.

Adélia

Foi Rinchão que apresentou Adélia ao amigo Teodorico. Eles terão um caso amoroso, mas ela o abandonará para ficar com Adelino. É uma mulher preocupada com posses, que, ao final da narrativa, ficará com o inescrupuloso, e agora rico, Padre Negrão.

Doutor Margaride

Personagem que alertou Teodorico para a possibilidade de sua tia deixar toda a fortuna para Jesus Cristo, através de irmandades e de religiosos amigos. O doutor fora juiz em Mangualde, mas agora passava o tempo lendo periódicos e algumas vezes jantava na casa de Titi. Gostava das hipérboles, pois, quando jovem, escrevera duas tragédias.

Padre Casimiro

Amigo, procurador e companheiro de numerosos jantares na casa da beata. Herdou dela algumas posses. Representa uma igreja que se fecha aos problemas sociais e vive dentro das casas dos representantes da abastada classe social de Portugal.

Padre Pinheiro

Trata-se de outro herdeiro de Dona Patrocínio. Hipocondríaco, ficava o tempo todo a se olhar no espelho, lamentando possíveis moléstias. Personagem bastante caricato.

Mary

É a amante de Teodorico em Alexandria. Foi ela que deu a Raposo a fatídica camisola que o levou à deserdação. O presente era uma recordação dos momentos prazerosos que os dois viveram. No retorno a Portugal, Raposão doou a uma mendiga um embrulho, pensando tratar-se da camisola, descobrindo tardiamente que, na verdade, era a “verdadeira relíquia”. A ironia de Eça aparece mais uma vez, pois o nome dessa amante de Raposo refere-se às histórias bíblicas, sobretudo à personagem Maria Madalena, “a quem Teodorico no final se lamenta de não ter atribuído a propriedade da camisola que o desmascarou”, como bem observou Fernando Marcílio Lopes Couto (QUEIRÓS, 2007).

Doutor Topsius

Personagem caricata, o doutor Topsius representa o “saber ilustrado”, pois, na verdade, não possui profundidade alguma em seus estudos. Ele sempre usa citações, mas tem um saber superficial acerca do Oriente. Alto, nariz agudo e pensativo, parece uma cegonha. Será ele que atestará a veracidade da relíquia que Raposo entregará para a tia. É o grande companheiro de viagem do protagonista pelo Oriente. Por meio dessa personagem, Eça de Queirós desenvolve a ironia diante do exagerado naturalismo cientificista da segunda metade do século XIX, já que o alemão era arqueólogo, doutor pela Universidade de Bonn e sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas.

Padre Negrão

Esse personagem, apesar de só ter aparecido no final da narrativa, terá um papel crucial na derrocada de Raposo. O dissimulado e interesseiro Padre Negrão cortejará a beata na ausência do sobrinho e construirá para ela a imagem de um verdadeiro servo de Deus. Por meio dele, Eça destilará sua crítica ao clero português, seguindo uma tendência dos romances anticlericais da segunda fase de sua produção. Padre Negrão frequentava a casa de Dona Patrocínio, pois viera para substituir o Padre Casimiro, seu tio, que adoecera. Negrão vai herdar a quinta do Mosteiro – perto de Viana de Castelo –, as inscrições do Crédito Público, a mobília da casa de Santana e o Cristo de ouro.
Também foi herdeiro do tio, Casimiro, e preparava-se para herdar a fortuna do Padre Pinheiro, a quem vivia empanturrando “com tremendos jantares para lhe apressar o fim”. Além de herdar a riqueza da tia de Raposo, toma-lhe também a amante Adélia, que já havia traído o azarado e “sem-nada” Teodorico.

O diabo

A atuação do diabo em um trecho do segundo capítulo de A Relíquia comprova que, apesar de ser uma mera personagem secundária, constitui-se um importante ponto de apoio para as críticas veiculadas por Eça de Queirós à Igreja e à religiosidade institucional. Satanás aparece em outras obras do escritor.

Outras personagens

Há outras personagens na obra: Vivência, criada de Titi; Justino, o tabelião; Silvério, por alcunha o Rinchão, amigo que apresentou Adélia a Teodorico; Alpedrinha, que aparece na narrativa como uma paródia dos grandes e heroicos navegantes portugueses, além de ter sido quem apresentou Mary a Raposão; Tote, o guia na viagem pela Terra Santa; Crispim, antigo amigo, posteriormente patrão e cunhado de Teodoro; e D. Jesuína, irmã solteira de Crispim e futura esposa de Teodoro.

Foco narrativo

Toda a ação da obra centra-se em torno de Teodorico Raposo, protagonista e narrador. Trata-se, portanto, de uma narrativa em primeira pessoa, em que Teodorico assume-se como alguém que vai escrever as suas memórias, com sobriedade e franqueza, submetendo-se ao duplo foco da história e da fantasia. De acordo com Ana Teresa Peixinho,

Ainda acerca do narrador, Saraiva e Lopes afirmam:

Outros estudiosos chegam a chamar a personagem-narrador de inverossímil, pois jamais um raso e limitado Raposo teria respaldo e conhecimento suficiente para narrar com detalhes a crucificação de Jesus de maneira tão perfeita. Mas, discussões de lado, é por meio do narrador que o escritor português faz duras críticas, como já foi mencionado, às estruturas portuguesas, carcomidas pelo conservadorismo e pela tradição paralisante da Igreja Católica.

Linguagem

A linguagem utilizada por Eça, na voz do narrador Raposão, é extremamente irônica, pois através da narrativa o escritor pontifica o cinismo dos exploradores da fé, dos verdadeiros “raposões” da vida. Por tratar-se de uma personagem-narrador dúplice, observa-se que, quando dentro de casa, ao lado da odiada tia, o discurso do narrador é extremamente bajulador e concordante com tudo o que a beata defende. Mas, quando longe da opressora, a voz narrativa é mais “leve” e bastante crítica em relação às carolices da velha detestada pelo narrador.

O discurso intertextual está bastante presente ao longo da narrativa, sobretudo no que tange ao catolicismo, pois o narrador faz uma grande paródia da religiosidade cristã e da crítica social de sua época. O estudioso Geraldo Chacon (1999) afirma também que Eça

Tempo

Logo no início do prefácio, o narrador-personagem situa o leitor em sua linha do tempo, mostrando que fará uma “viagem” ao passado (flashback) e contará toda a sua “peregrinação” até o restabelecimento na quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso). Duas datas são mencionadas de maneira explícita: o ano de 1853, quando o pai de Teodorico estabeleceu amizade com D. Gaspar de Lorena, bispo de Corazim e quem lhe concedera um bom emprego; e o ano de 1875, quando Raposão fez a famosa viagem à Terra Santa.

Espaço

Predominam, na obra, Portugal (Lisboa, Coimbra e arredores) e a Terra Santa, mas outros espaços também merecem ser citados, como Alexandria, no Egito, o Cairo, o Nilo, as Esfinges e, principalmente, as igrejas, que foram preteridas por Raposão para ele ficar ao lado de sua amante inglesa, Mary. Na verdade, Raposão pensava quase o tempo inteiro em “relaxações” e prazeres mundanos. Como já foi mencionado anteriormente, o narrador se excede nas descrições dos espaços “visitados”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar de ser uma obra do Realismo, A Relíquia expõe a dúvida sobre toda e qualquer verdade estabelecida e todo e qualquer meio para obtê-la. Assim, como atesta o estudioso Fernando Marcílio Lopes Couto (QUEIRÓS, 2007), a crítica do escritor atinge tanto a religião quanto a Arte e a Ciência.

Couto também tece comentários acerca das palavras que servem de pórtico para a obra: “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”. O crítico afirma que tais palavras

A viagem de Teodorico pelo Oriente, sobretudo, tem uma significação espiritual “(de autodescoberta) e social (de representação da decadência moral do povo português).”

O riso, a paródia e a ironia são muito valorizados nas obras de Eça de Queirós. Em A Relíquia, são usados para polemizar o real (e Eça é um escritor realista!) por meio de devaneios e ilusões vivenciadas pelas personagens.

“O tratamento irônico que Eça confere aos assuntos sagrados marca a relação de A Relíquia com o Naturalismo.” Os aspectos bestiais e impulsivos de Teodorico são características também do Naturalismo. O cientificismo naturalista, por sua vez, foi bastante ironizado.

A obra apresenta um forte pessimismo, como acontece em tantas outras obras de Eça de Queirós.

Um dos principais objetivos do escritor português, em sua segunda fase, foi criticar duramente a sociedade de Lisboa, como fez também em obras como O primo Basílio e O crime do padre Amaro.

O autor enfoca temas universais: essência versus aparência e o jogo de interesses. Por fim, Eça denuncia, mais uma vez, o clero lusitano, mostrando a hipocrisia e a dissimulação de alguns religiosos.

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